Fernando Pessoa

Em 30 de novembro de 1935, aos 47 anos, morre Fernando António Nogueira Pessoa. Com ele mais três “escritores”. Fernando Pessoa, escrevia e assinava em seu próprio nome, porém também em nome de mais três personagens.

Com tal criatividade e ricos detalhes, junto com ele, morriam: Alberto de Campos, Álvaro Campos e Ricardo Reis.

Este processo de ser vários, na psiquiatria pode ser um transtorno de ansiedade, chamado de dissociação da personalidade. Mas na literatura portuguesa este fenômeno, provavelmente único no mundo não tinha rótulos psiquiátricos, mas sobre o tema há dissertações e teses elaboradas por estudiosos da letras no mundo inteiro. Fernando Pessoa criou a partir de si mesmo mais 4 personagens cada um com identidade própria, características e estilos literários diversos.

Os heterônimos são personalidades poéticas ou o ‘eu lírico’. Através de identidade própria, nascimento, características, profissão e estilo literário cada um dos heterônimos foram ‘criados’ por Fernando Pessoa, com manifestações artísticas próprias e diversas do autor original. Assim os heterônimos mais conhecidos são Álvaro de Campos, um engenheiro de educação inglesa e origem portuguesa, mas que se sentia sempre um estrangeiro. Ricardo Reis que expressa um certo bucolismo, com temáticas relacionadas a vida no campo e Alberto Caeiro, que possuía apenas o primário e ainda assim, foi considerado um mestre entre os heterônimos.

O ortônimo de Fernando Pessoa seria ele próprio, o escritor que criou os heterônimos, um homem magro, medindo 1,73 m de altura. Vestia ternos de cores escuras e usava chapéu. Era míope, usava óculos, um homem muito misteriosos, atento e observador. Usava um bigodinho que lhe conferia uma imagem especial. Fumava 80 cigarros por dia e por isso adquiriu um pigarrear característico, seguido de uma tosse seca.  No fundo nunca deixou de ser um homem neurastênico, solitário e reservado, pouco dado a conversar com estranhos e dizem ter se tornado melancólico e angustiado ao final de sua vida, abreviada por uma cirrose atribuída ao uso excessivo de álcool. Não gostava de falar de si e de seus problemas, mostrando-se muito reservado. Também não gostava de tirar fotografias nem de falar ao telefone. No fundo, era um tímido introvertido, dado a fortes instabilidades de sentimentos e emoções. Muito supersticioso mostrava atração pelo oculto, esotérico e tinha uma relação metafísica com a vida, tendo estudado teosofia e maçonaria. Apesar de tanta complexidade era um homem simples com grande inteligência e extrema sensibilidade, um homem bondoso e sempre disponível para ajudar os outros. Em sua vida amorosa, mais calado do que conquistador, não se atreveu a grandes feitos. Nunca se casou a despeito de seu enamoramento pela jovem Ofélia Queiroz, que conhecera como estagiária em um dos escritórios em que trabalhava.

Sua obra é de muita vivacidade e apresenta um variado e nada monótono elenco, que em cada sutileza cênica, contaria uma história singular de vida. Essa foi a marca deixada em suas obras literárias. Poesias incríveis. Vivas. Poesias que falam de liberdade em sua escolha mais simples: ter um livro para ler e não o fazer. Que descobriu e divulgou que cartas de amor são chatas. Um louco que dizia andar de mãos dadas com o menino Jesus e brincar com eles pelos campos. Um escritor conhecido internacionalmente, que se refere a duas datas: a de seu nascimento e a de sua morte, garantindo, que entre uma data e outra, todos os dias são seus. Preencheu, como ninguém, este intervalo. Onde vários poetas o habitara e com ele, foram sepultados.

Referências:
BRÉCHON, Robert. Estranho Estrangeiro Tradução de Maria Abreu e Pedro Tamen. Record, 2013. Disponível em http://www.editoras.com/record/05247.htm.

GANMA, Rinaldo. O drama da linguagem. Disponível em http://www.culturapara.art.br/opoema/fernandopessoa/fernandopessoa.htm.

MACHADO. Luis. À mesa com Fernando Pessoa. Lisboa: Pandora, 2001.

PESSOA, F./Alberto Caeiro: Poemas Inconjuntos; escritos entre 1913-15; publicat per Atena, núm. 5, febrer del 1925.

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