Murilo Rubião

Por Paula Perin dos Santos
Primeiro contista do gênero fantástico em nossa literatura, a obra de Murilo Rubião permaneceu desconhecida durante mais de três décadas. Foi com a reedição do livro de contos “O Pirotécnico Zacarias”, em 1974, que Murilo começou a ser lido, tornando-o praticamente um best-seller nacional.

O que causa perplexidade e fascinação nos leitores é que Murilo Rubião impõe o caso irreal como se fosse real. Mário de Andrade, em 1943, já dizia do escritor: “Ele possui o mesmo dom de um Kafka. A gente não se preocupa mais, é preso pelo conto, vai lendo e aceitando o irreal como se fosse real, sem nenhuma reação mais”.

Ele utiliza em sua obra uma linguagem simples, depurada e temas absolutamente inverossímeis. É como o crítico Benedito Nunes, da Revista Colóquio, dizia: “o traço mais relevante da narrativa muriliana é o contraste entre a particular incoerência do discurso narrativo e a particular incoerência da matéria narrada”. Ou seja, os acontecimentos fora do comum que norteiam à narrativa constituem a trama de cada história. Isso nos torna capaz de não nos surpreender com os fatos narrados, tanto é que os personagens encaram a “anormalidade com uma naturalidade fora do comum”.

Jorge Schwartz organizou alguns temas freqüentes que estruturam a obra de Murilo Rubião:

* Inversão da casualidade espaço-temporal: “Mariazinha”, “A Noiva da Casa Azul”, “Epidólia”, “O Bloqueio”.

* Tendência ao infinito: ”A Armadilha”, “Aglaia”, “A Fila”, “Os Comensais”.

* Desaparecimento dos personagens: “Elisa”.

* Metamorfose-zoomorfismo: “O Ex-Mágico, “Teleco, o Coelhinho”, “Os Dragões”.

* Contaminação homem-objetos: “A Lua”, “A Casa do Girassol Vermelho”.

* Contaminação sonho-realidade: “O Lodo”.

A hipérbole é uma técnica narrativa bastante presente nesses temas. No conto “Aglaia”, por exemplo, o casal gera filhos que nasciam com seis, três, dois meses e até dias após a fecundação, mesmo após evitar contato sexual e se esterilizarem.

Uma característica peculiar à obra de Murilo Rubião é o uso das epígrafes bíblicas e colocadas no início de cada livro e de cada conto em particular, com o intuito de apontar, de maneira simbólica, a temática a ser abordada. Isso não quer dizer que os contos tenham conteúdo cristão. Ao contrário disso, em “O Convidado”, o primeiro e último conto da edição original apresentam epígrafes do livro do Apocalipse e seus temas como zoomorfismo, a metamorfose, policromias e magias em nada se relacionam com o universo cristão.

O uso dessas técnicas e temas fantásticos funciona não só como recurso de prender o leitor numa leitura prazerosa e de distração. Mais do que isso, assume uma função crítica. Isto é, o fato sobrenatural e fantástico é um recurso da imaginação para remeter-nos aos conflitos de nossa própria existência. É assim que Murilo Rubião desvenda em seus contos os grandes dramas da natureza humana.

Os personagens da narrativa muriliana apresentam uma visão de que viver neste mundo é uma experiência sem solução: a angústia das relações artificiais presentes nas cerimônias sociais fica bem retratada em “O Convidado”; a burocracia recebe críticas severas no conto “O Ex-Mágico”: o tédio com que fazia repetidas mágicas era tanto que decidiu suicidar-se, mas de maneira lenta. Por isso empregou-se numa Secretaria de Estado.

Não há salvação ou final feliz nos contos de Rubião. Seus personagens são solitários e caracterizam-se por eternas buscas e contínuos desencontros. As mulheres em sua narrativa, como Elisa, Epidólia, A Noiva da Casa Azul, não respondem aos desejos dos amantes. Essa fatalidade vem estender-se até a própria criação artística de Rubião. Numa entrevista, o contista revela que reescreve inúmeras vezes seus contos, alterando a linguagem até a exaustão, numa busca incessante pela clareza da narrativa. Esse retorno freqüente à elaboração da narrativa representa uma analogia ao trajeto e perfil de seus personagens, perdidos numa tentativa de perpétua procura por respostas às questões nossa existência.

Fontes
RUBIÃO, Murilo. Literatura Comentada. ORG. SCHWARTZ, Jorge. São Paulo, Abril, 1981.
____________. O Convidado. 2ed. São Paulo, Edições Quíron, 1979.