A Origem

Este é, com certeza, o filme mais aguardado e o melhor de 2010. E certamente ele não pode ser analisado exclusivamente com os instrumentos da razão, pois transcende a compreensão racional ao explorar dimensões ainda parcialmente desconhecidas do ser humano. A Origem (Inception, título original) enfoca os meandros do inconsciente que se refletem nas esferas oníricas, não apenas produzindo os sonhos mais comuns, mas sim camadas de imagens quiméricas no interior de outras camadas.

Estas supostas fantasias, porém, revelam ser bem mais reais do que se imagina ser o mundo não-ficcional. No mundo contemporâneo, pós-advento da Física Quântica, a qual defende que tudo no Universo é energia e, portanto, a matéria mais sólida é, na verdade, produto de partículas que se encaixam umas dentro das outras e vibram tão lentamente que criam a ilusão de solidez, é difícil definir a realidade concreta.

É justamente um universo como este que A Origem aborda, um mundo fluido prestes a desvanecer a qualquer momento, uma vez que carece da consistência necessária. Esta esfera é entretecida com o mesmo tecido que constitui a mente inconsciente do Homem. Sim, é um filme complexo, mas que não impede o espectador comum de mergulhar em sua trama, que prende a atenção do começo ao fim; é difícil até mesmo respirar durante o desdobrar dos acontecimentos.

Na trama que aqui se desenrola o protagonista, Dom Cobb, interpretado corretamente por Leonardo DiCaprio, especializou-se em roubar os sonhos de outras pessoas, invadindo, com uma surpreendente equipe de profissionais, o inconsciente alheio. Ele acredita que uma ideia é como um parasita resiliente, ou seja, algo que persiste no local em que se fixou, independente de toda e qualquer adversidade que o impeça de seguir em frente.

Assim, as ideias têm o poder de transformar o mundo. É este princípio que move Cobb em seu obsessivo esforço para roubar os sonhos das vítimas de clientes que contratam seu trabalho. Arquiteto, ele desenvolveu o poder de construir cenários onde se desenrolam os dramas oníricos daqueles que têm a mente devassada.

Um trauma desenvolvido em seu passado, porém, o impede de continuar projetando estas paisagens e ameaça suas novas incursões ao inconsciente das pessoas, especialmente quando ele decide aceitar um último trabalho que lhe oferece a oportunidade de superar os acontecimentos de outrora e retornar para sua família, mesmo ciente do que irá enfrentar, ao lado dos companheiros, nesta derradeira jornada.

A Origem pode ser interpretada como uma alegoria que revela a fragilidade da mente humana diante de tantas invasões em sua esfera, seja pela manipulação consciente e/ou inconsciente exercida pela mídia e pelas instâncias sócio-políticas, ou pela figura ameaçadora do mercado que induz incessantemente o indivíduo ao exercício do consumismo.

Christopher Nolan, o mesmo que se celebrizou por filmes como Batman, o Cavaleiro das Trevas e Amnésia, alcançou em A Origem a criação de uma obra épica que nos remete imediatamente a um clássico como Matrix, no qual sonho e realidade se mesclam também de tal forma, que todo o Universo se transforma em algo fluido, e o que é sólido se desmancha no ar. Nestes mundos que se interconectam, a humanidade carece de certezas, de dogmas, e de verdades absolutas; mas nem por isso o ser humano está mais seguro, ou a salvo das ancestrais doutrinações mentais.

Resta buscar a salvação, como Neo, em Matrix, ou mergulhar em camadas de ilusões, à procura da libertação total, como Cobb, em A Origem; ambos, porém, pagam um alto preço por suas escolhas.

Fontes:
A Origem. Direção: Christopher Nolan. EUA/Reino Unido. 2010, 148 minutos. Elenco: Leonardo DiCaprio, Ellen Page, Marion Cotillard, Tom Berenger.
http://omelete.com.br/cinema/critica-origem/

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