A Suprema Felicidade

Finalmente o cineasta Arnaldo Jabor deixa um pouco suas crônicas políticas de lado e retoma sua antiga arte, o cinema, revelando estar ainda em plena forma. É assim que ele compõe A Suprema Felicidade, um filme sensível, delicado e irônico, que reconstitui um pouco da história do Rio de Janeiro do final dos anos 30 até a década de 50.

Jabor reconstitui este período através da representação da trajetória de uma família de classe média, desde o momento em que o casal se conhece. Marco é interpretado por Dan Stulbach, perfeito em sua performance do oficial da FAB apaixonado por seus aviões, sempre batizados com nomes femininos, mas incapaz de amar plenamente a esposa, Sofia, vivida por Mariana Lima, que tece nas telas a interpretação sutil de uma mulher dividida entre a submissão ao marido e os sonhos do passado.

Paulo, vivido pelo ator Jaime Matarazzo, é o filho de ambos, que cresce em um ambiente emocionalmente desestruturado, estuda em um colégio de padres, mas é profundamente influenciado pelo avô, Noel, magistralmente interpretado por Marco Nanini, um boêmio inveterado que alimenta as memórias de uma cidade que não existe mais. O próprio protagonista desfila por um Rio de Janeiro pós-guerra que, em termos de arquitetura e de ambiente acolhedor, também já desapareceu.

Paulo se torna um jovem repleto de angústias, inquietações e frustrações. Ele não deseja seguir o destino do pai, mas também não consegue encontrar seu próprio rumo. Sua única bússola é a que emana do coração e da história de seu avô, que o guia por uma cidade imaginária.

O rapaz passa por vários encontros e desencontros amorosos e existenciais, despindo-se, pouco a pouco, de sua inocência inicial. O longa-metragem apresenta alguns momentos musicais que acentuam sua atmosfera nostálgica, um deles protagonizado por Tammy Di Calafiori, musa de Paulo, que canta em uma espécie de cabaré antigo caracterizada como Marilyn Monroe.

Jabor se mostra mais saudoso que nunca neste filme, evocando uma época e uma geografia afetiva que foram completamente arruinadas; ele tenta, através de seu alterego Paulo, reencontrar o Rio de outrora, mas só se depara com vestígios de suas lembranças. Algumas destas antigas imagens são captadas quase por encanto pelo mago da fotografia, Lauro Escorel.

O diretor, que passou praticamente 26 anos distante da sétima arte, embora alegue ter produzido um filme em 1992, Amor à Primeira Vista, não exibido nos cinemas, se dedicou ao longo deste tempo às crônicas jornalísticas, em busca de melhores recursos financeiros. Sua nova produção conta com o suporte da Globo Filmes e a distribuição da Paramount. Isto explica basicamente seu retorno à criação cinematográfica, que não se constituiu, porém, em uma unanimidade positiva da crítica.

A Suprema Felicidade revela, em alguns pontos do enredo, o ressentimento do diretor com a nova safra de filmes espíritas na cinematografia nacional, traduzido por sua veia irônica em cenas protagonizadas pela atriz Maria Flor, que tem uma participação especial no filme. Por outro lado, há cenas de intensa beleza, que quase fazem o espectador esquecer da carência de intensidade encontrada em outras passagens do longa.

Fonte:

A Suprema Felicidade. Direção: Arnaldo Jabor. Brasil, 2010, 125 min. Elenco: Dan Stulbach, Mariana Lima, Marco Nanini, Jaime Matarazzo, Tammy Di Calafiori.

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