Distrito 9

Assistir Distrito 9 não é das tarefas mais fáceis, pois nas telas o espectador se depara com suas próprias mazelas, especialmente com a intolerância e o grau zero na aceitação das diferenças. Esta obra-prima do gênero ficção científica toca nas feridas mais profundas da alma humana, exibindo diante do olhar do público a forma muitas vezes cruel com que o ser humano lida com a alteridade.

distrito 9 posterEste filme vai contra a velha e tradicional concepção do extraterrestre que invade a Terra e, quase sempre, elege misteriosamente o povo norte-americano como adversário, visão que encontra seu ápice em produções como Independence Day. Aqui a nave-mãe originária de um planeta desconhecido paira sobre Johanesburgo, uma das maiores metrópoles da África do Sul.

Nesta nave espacial são encontrados seres estranhos, com forma de inseto, depreciativamente chamados de ‘camarões’. Sem saber como agir diante de tais criaturas, que representam a mais radical alteridade, as autoridades locais as confinam em um gueto conhecido como Distrito 9, onde elas vivem de uma forma aviltante e desprezível, exatamente como em um campo de concentração.

Uma indústria armamentista é responsável pela exclusão destes seres, pois vêem em sua total e completa submissão a possibilidade de lucrar com suas armas. Diante da passividade de ‘insetos’ que agem como operários, uma vez desprovidos da presença de uma espécie de rainha-mãe, como entre as abelhas, os executivos desta multinacional não têm maiores dificuldades em atingir pelo menos parte de seus objetivos.

Trailer

O protagonista desta trama, Wikus Van De Merwe, interpretado por Sharlto Copley, um sul-africano autêntico, é a imagem do anti-herói, de certa forma simpático, mas um burocrata alienado que trabalha para esta empresa, a Multi-National United (MNU) e despreza igualmente os ‘camarões’, até se ver envolvido em um estranho caso de transmutação, que lembra imediatamente a transformação vivenciada pelo personagem de Franz Kafka no livro 'A Metamorfose', ao ser incumbido de notificar os aliens de seu iminente despejo do Distrito 9.

Neil Blomkamp é o diretor independente que se revela diante do mundo com esta obra surpreendente que mistura elementos de ficção científica com uma contundente crítica social. Esta obra nasceu sem muitas ambições de superprodução, com uma publicidade singela mas acirrada, com pôsteres espalhados pelos principais pontos de ônibus dos EUA, pedindo ao povo que denunciasse ETs.

Este foi o recurso da surpresa, o outro foi o da participação de Peter Jackson, diretor do clássico O Senhor dos Anéis, como produtor facilitador, o profissional que procura garimpar novos talentos. Um elemento que permitiu igualmente sua alta cotação junto ao público e à crítica é a profunda bagagem cultural de Blomkamp, especialmente a literária, que o impediu de cair nos velhos clichês deste gênero.

As  cenas desta produção foram gravadas em uma favela de Soweto, reproduzindo irônica e tristemente os recentes conflitos pós-apartheid que vêm abalando a região. Blomkamp, mesmo sem se dar conta, reproduz nas telas o que vivenciou em Johanesburgo, ao longo de sua vida, durante os embates segregacionistas e também depois da queda do regime racista.

Infelizmente os mesmos protagonistas da cruel discriminação racial parecem repetir, hoje, a mesma história com relação aos imigrantes. Como para confirmar este raciocínio, durante as filmagens, em 2008, vários conflitos tomaram as ruas próximas às filmagens e diversos habitantes do Zimbábue, à procura de novas oportunidades na África do Sul, foram mortos brutalmente. Episódios como esse reforçam a idéia do diretor de dar ao seu filme um caráter documental, uma vez que ele se alicerça profundamente em uma realidade concreta.

A Sony, distribuidora deste filme, se viu surpreendida com a grandiosa recepção de Distrito 9, e até mesmo sua filial brasileira teve que providenciar mais cópias desta película – inicialmente seriam apenas cem cópias. Com certeza a empresa não se arrependeu, pois as salas de exibição estão sempre repletas de um público ansioso para descobrir o porquê de tanto sucesso.

Fontes:
Distrito 9 – Direção: Neil Blomkamp – Elenco: Sharlto Copley, David James e Jason Cope – 2009 – EUA – 112 min.
SCIFI NEWS – Cinema, TV, DVD – Ano 13 – Edição 140 – Outubro 2009.

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