Meu nome não é Johnny

Por Ana Lucia Santana
Através do protagonista desta obra, é possível mergulhar no universo do tráfico, não nos morros desta vez, mas na cidade, no âmago da elite carioca, nas noites regadas a cocaína servida em bandejas, em um território onde tudo é permitido, no qual pessoas de todas as raças, sexos, idades e níveis sociais – da classe média baixa às altas camadas – se unem em um ritual de pretensa liberdade, fundando à sua maneira a tal ‘sociedade alternativa’ de Raul Seixas. O músico João Guilherme Estrella se destaca neste círculo por sua ânsia ilimitada de ser livre,

intrinsecamente ligada à sua capacidade empresarial, à sua visão inovadora, a uma ousadia que beira a loucura em alguns momentos. Sua dependência crescente do vício, somada a estas qualidades, o levam além dos limites do consumo, e até do próprio tráfico em pequena escala. Seus movimentos frenéticos, sua obsessão pelas vitórias e por estar sempre no topo, herdadas do pai, que valorizava ao extremo a força e a competitividade, guiaram João em sua escalada no submundo das drogas. Da transação com 50 gramas aos altos negócios com 15 quilos de coca, ele se torna o Barão do Pó.

Os personagens que transitam por esta história são bem reais, desde a velhinha preocupada com a segurança de João, que na verdade é uma conhecida traficante de Copacabana, ao psiquiatra renomado que mergulha fundo no abismo do vício, sem passagem de volta. Entre esses dois extremos, desfilam nas jornadas da droga profissionais liberais, jornalistas, artistas, entre outros. Esta fauna boêmia da Zona Sul tem nos anos 90 sua temporada de delírios, em pontos bem demarcados do Rio de Janeiro, passando pelo Baixo Leblon, o Baixo Gávea, e durante algum tempo ela teve sua sede no estacionamento da Cobal, um conhecido mercado - no Leblon e em Botafogo. Uma das passagens mais contundentes deste livro é a que narra as sessões alucinantes movidas a LSD, que se transformam em rituais de natureza quase sagrada, não fosse seu teor profano. O autor distingue claramente, aqui, os aspectos que envolvem a cocaína e o LSD. Aquela é individualista, nervosa, frenética e João a compara ao sexo pago. Já esta última é romântica, comunitária, gera um ambiente criativo e sensível, permite que os relacionamentos se aprofundem.

Arraial d’Ajuda, Sul da Bahia, final dos anos 70. Neste período, João foi um dos pioneiros neste território selvagem, que ele ajudou a domar, ao lado do Professor Ary Sobral. Neste local isolado da civilização, os sonhos de construir um universo alternativo, bem no estilo Raul Seixas, “para loucos e raros”, tornou-se por algum tempo realidade, embora quase irreal. Lá se vivia como se fosse uma criança, brincando de ser feliz, jogando dados com a vida. Esse era o contexto dos devaneios via LSD, uma era de loucura e romantismo. Já os anos 90 são eletrizantes, a década em que reinam o individualismo, o crime organizado, os grandes negócios internacionais que envolvem o tráfico, o convívio superficial entre as pessoas. Um ambiente nada condizente com rituais comunitários, mas totalmente sintonizado com a vertigem nervosa do pó branco. Nada melhor para alguém como João, agitado, competitivo, já refeito do seu mergulho temporário no universo irreal do sul da Bahia.

Guilherme Fiúza também revela, nesta obra, sem hipocrisias ou meias-palavras, o outro lado do glamour das drogas e do tráfico. Afinal, a estação final chega para cada um dos participantes desta ciranda de consumo, altas transações e desfrutes ilimitados, como no caso de João, que não acumula os milhares de dólares que conquista em seus negócios muito bem-sucedidos, pelo contrário, faz questão de realizar todos os seus desejos mais loucos, ao lado da esposa Sofia. Mas, ao contrário do que imagina, a sorte não estará eternamente ao seu lado e, quando menos espera, ele começa a viver na contramão da vida, sem sol, sem praia, portanto sem o ar do qual ele mais necessita para sobreviver. À medida que o protagonista se entranha nos mecanismos vigentes nas galerias da Polícia Federal e, posteriormente, nos meandros do Manicômio Judiciário Heitor Carrilho, o leitor vai se deparando com os personagens mais estranhos, surpreendentes, reveladores e, muitas vezes, trágicos.

No momento mesmo de sua prisão, percebe-se que, entre o lado do crime e o lado dos policiais, passando pelas criaturas comuns, como o porteiro do prédio onde João é flagrado, tudo é bem mais complexo. Nem um nem outro são heróis ou vilões, mas seres contraditórios e revestidos de sua própria complexidade, ambos representando seus papéis nos palcos ainda mais intricados da vida. Este emaranhado se acentua ainda mais nas celas da Polícia Federal, e vai muito além no cerne do Manicômio. Nada é o que parece, até mesmo os personagens mais violentos têm seu lado doce, suave, tranqüilo, até mesmo familiar. João consegue evitar que um companheiro do Hospital extermine um companheiro de cela que o delatou para as autoridades, lembrando-o que o crime arruinará ainda mais sua situação, privando-o por um tempo indeterminado da companhia de seu filho de um ano de idade. Aos poucos, o protagonista vai se adaptando às situações à sua volta, percebendo que só o autocontrole permitirá que sobreviva neste meio e que retorne para a sociedade o quanto antes.

É impressionante perceber a presença, tanto no universo do tráfico, quanto nas prisões, de um código de honra, de uma ética adaptada aos diferentes contextos. Aliás, João é a ética e a verdade em estado puro. Enquanto traficante, fazia questão de honrar seus compromissos e de vender a coca mais pura, que provocava menos problemas que o pó misturado. É assim que ele se une a Alex, outra figura impressionante da galeria de personagens – preso à cadeira de rodas, ele tinha uma posição de destaque na Conexão Nelore, que de Rondonópolis, interior do Mato Grosso, distribuía a coca pura por todo o país, e depois pela Europa, através de João, na chamada Operação Amsterdã. João também é irredutível em casos de delação, e não entrega ninguém, nem clientes nem traficantes, mesmo quando seriamente ameaçado na Polícia Federal.

Guilherme Fiúza revela-se à altura desta realização literária. Talvez nem o jornalista nem João esperassem um impacto tão profundo na crítica literária e no gosto do público, quando o autor procurou seu protagonista pela primeira vez, em julho de 2001, com a proposta de publicar sua história, valendo-se para isso de seu nome verdadeiro e dos fatos reais. João Guilherme aceitou a empreitada, não teve medo de revelar sua face, suas aventuras, sua vida, com total transparência. Esta narrativa foi transcrita a partir de aproximadamente 30 horas de entrevistas gravadas com João, sua família, autoridades e personagens da noite carioca, bem como de relatos da mídia e documentos judiciários.

Fontes
Meu nome não é Johnny – Guilherme Fiúza – Editora Record – Rio de Janeiro - 336 pp.