Gramática Transformacional

Por Paula Perin dos Santos
Quando Noam Chomsky publicou pela primeira vez em livro sua teoria da Gramática Transformacional (1957), sua obra causou grande agitação nos meio linguísticos porque representava um desafio aos fundamentos das gramáticas estruturais e também às teorias behavioristas de aquisição da linguagem. No primeiro capítulo de Aspects, ele afirma que a aprendizagem da língua não é uma questão de hábito e condicionamento, mas um processo criativo, uma atividade cognitiva e racionalista, e não uma resposta a estímulos externos.

A exigência de uma escrita que seja formal é um ponto pacífico para que essa teoria da linguagem seja explicativa e científica. Assim, Chomsky promove um crescente rigor formal ao tratar das questões linguísticas, promovendo a formalização dos estudos linguísticos.

Com a finalidade de realizar seu projeto teórico-científico, Chomsky elege a Gramática Transformacional (capacidade de mudar) como a que melhor abrange as estruturas (sintáticas) da linguagem. Primeiramente, ele propõe que a Gramática Transformacional tenha dois tipos de regras: as sintagmáticas, que geram estruturas abstratas e as de transformação, que convertem essas estruturas abstratas em sequências terminais, que são as frases da língua.

Com o desenvolvimento de sua teoria, Chomsky instituiu – além da estrutura superficial (ES), que é a unidade tal como elas se apresentam nas frases realizadas – a noção de estrutura profunda (EP), que é subjacente à superficial e onde se representam as formas abstratas. Ambas as estruturas se relacionam através de transformações (frásicas).

Seu livro, Aspects of the Theory of Syntax (1965) é uma referência necessária para conhecer o gerativismo. É conhecida também como teoria-padrão. Nela, o modelo frásico tem três componentes: o central (sintático) e dois interpretativos (o semântico e o fonológico). O sintático é formado pela base do enunciado, que gera as estruturas profundas e pelas transformações, que levam às estruturas superficiais. Já os dois componentes interpretativos incidem sobre o componente sintático, a saber: o semântico, sobre a EP; o fonológico, sobre a ES.

Após essa teoria, Chomsky propõe, em 1972, a teoria-padrão ampliada e em 1976, a teoria-padrão ampliada revista. Essas propostas têm sempre o mesmo objetivo: valorizar cada vez maior a ES, dando menos importância à EP, desprestigiando o papel das transformações. Essas várias reformulações em sua teoria levantam o questionamento se era realmente necessário fazer essa distinção entre ES e EP. Se não era, a contribuição da gramática transformacional foi realmente ideológica: serviu para desmontar a concepção comportamental da linguagem que sustentava o estruturalismo.

A gramática transformacional apresenta duas contribuições importantes para o ensino de línguas: a primeira contribuição é que a gramática transformacional tornou explícita “as capacidades que o estudante de línguas precisa ter para aproximar-se da competência de um falante nativo”, isto é, a capacidade de distinguir sentenças gramaticais de não-gramaticais, capacidade de produzir e compreender um número infinito de sentenças gramaticais. A segunda é que, mesmo um exame cuidadoso dessas capacidades não forneça necessariamente uma resposta de como são adquiridas, é evidente que há certos modos pelos quais é muito improvável que sejam adquiridas.

Contudo, os recortes e exclusões feitos voluntariamente por Chomsky e Saussure deixam de lado a situação real de uso (o desempenho, em um; a fala, no outro) para ficar com o que é virtual e abstrato (a competência e a língua), ambos seguindo a tendência formalista.

Fontes
LIMA, Eni Marins de. Teoria Transformacional e Ensino de Línguas. Rio de Janeiro, Ao Livro Técnico, 1981.
ORLANDI, Eni Pulcinelli. O que é Linguística. Série Princípios. São Paulo, Ática.