Tecnologia na Escola e no Ensino

Por Ricardo Normando Ferreira de Paula

Comenius

Segundo Chaves (1999), a primeira tecnologia que tornou viável os cursos de EAD foi a escrita, pois possibilitou às pessoas escreverem o que antes só poderia ser falado. Como todo o conhecimento era passado oralmente, muitas informações importantes foram perdidas ou modificadas com o passar dos tempos. A tecnologia tipográfica, inventada posteriormente por Gutemberg, ampliou o alcance da educação a distância, surgindo, então, a primeira forma de EAD que foi o ensino por correspondência. Por conseqüência, com todas as evoluções que estamos presenciando, o livro (sistematizado e implantado por Comenius) ainda é uma das tecnologias mais importante para o ensino à distância, o que já está começando a ser modificado com o aparecimento de novas tecnologias (eletrônicas digitais). No entanto, ainda perdurará por muitos anos a supremacia do livro.

O exposto anteriormente se sustenta na fala de José Manuel Moran: “Na sociedade da informação todos estamos aprendendo a conhecer, a comunicar-nos, a ensinar e aprender, a integrar o ser humano e o tecnológico; a integrar o audiovisual, o grupal e o social.”. Isto é, nossa prática de aliar tecnologia e ensino ainda é muito incipiente. A conclusão é que estratagemas mais tradicionais (como é o caso do livro impresso) ainda tenham um longo período de relativa soberania. E sobre isso, Dowbor (1994) nos acrescenta que “frente à existência paralela deste atraso da modernização, é que temos que trabalhar em ‘dois tempos’, fazendo o melhor possível no universo preterido que constitui a nossa educação, mas criando rapidamente as condições para uma utilização ‘nossa’ dos novos potenciais que surgem”.

O paralelo em que encontramo-nos (essa vivência em dois tempos a que se refere Dowbor) é o de um processo onde a troca de informações entre diversos setores do conhecimento é, a cada dia, mais intensa. Quando nos deparamos com esse trânsito vertiginoso de informações em sala de aula (com questionamentos variados e anseios por informações acerca da modernidade), é fato notório que nós, professores, precisamos abrir um maior canal de exploração de cada mídia como recurso pedagógico de apoio incondicional à nossa prática docente, sob a pena de não acompanharmos a grande tendência da tecnologia atual e, por conseqüência, nos tornamos obsoletos no mercado. E isso exige uma tomada de postura extremamente radical na nossa conduta.

Seymour Papert

Com relação à mudança de postura e de conduta, quando perguntamos a alguém o motivo de ter criado algo novo, a resposta é, em geral, a seguinte:Quando eu era criança, vários fatores me levaram a entender que alguma coisa estava muito errada.” Estas palavras de Seymour Papert (considerado o pai da Informática Educativa) quando indagado acerca da sua visão tecnológica, nos deixa bem claro que são nossas inquietações em todas as salas de aula pelas quais passamos que nos faz perceber o que há de falho na estrutura e começarmos a pensar em questões que possam trazer melhorias. No entanto, existe uma longa caminhada entre o pensar, o agir e o transformar.

É fato certo que todas as mudanças demandam grande gasto de energia, mas é exatamente aí que nos tornaremos diferentes dos demais criando mecanismos próprios de trabalho e enfatizando que sempre que houver uma proposta de mudança esta deverá ser testada e, em caso de sucesso, ser repassada para todos aqueles a quem a referida mudança interesse, direta ou indiretamente. Se formos analisar um (para ficarmos apenas em um) exemplo mais antigo, chegaremos em Comenius. Sua visão de erro na estrutura foi a mesma de Papert, apenas em épocas e situações diferentes. Comenius, com base na sua experiência juvenil, percebeu o incômodo que era estudar línguas por longos intervalos de tempo e não possuir um material didático apropriado que ajudasse nessa tarefa.

Humberto Maturana

Todo processo de mudança precisa de um rompimento na visão que temos da nossa cultura e de nós mesmos enquanto pessoas e profissionais. E, o que é mais importante: coragem para testar o novo. Segundo Maturana: “As mudanças culturais ocorrem quando há as mudanças no emocionar que define as redes de conversação em que se vive.” Essas redes de conversação agora se desenvolvem em ambiente virtual, onde um conjunto de necessidades começa a surgir e com elas, uma modificação muito grande em nossa cultura.  Ainda segundo Maturana: “Em geral, estas mudanças culturais ocorrem simplesmente porque vão mudando as condições de vida e as pessoas vão mudando o que fazem, ou porque há situações experiências que resultam, em nosso caso, em uma reflexão que nos leva a querer viver de outra maneira. Mas, o viver é sempre conservador.” Nesse aspecto, vislumbro uma situação onde a cada período que passar a figura do professor, além de indispensável, se torna cada vez mais necessária.

Observando a tabela abaixo, podemos concluir que há um salto de qualidade muito grande quando tratamos o processo educacional por uma perspectiva mais tecnológica:

MUDANÇAS
ANTES DEPOIS
Modelo cultural e burocrático (massificação do ensino); Modelo de ensino baseado na construção do conhecimento e crítica;
Organização linear no processo de ensino; Organização não linear no processo de ensino;
Postura do aluno (passivo, imaturo, consumista de informação pronta, ausência de autonomia, de organização pessoal); Postura ativa do aluno;
Postura do professor (deslumbrado, tradicional, resistente); Prática e postura do professor (usuário moderado, inovador);
Aulas focadas no conteúdo, na informação; Foco nas aulas (há equilíbrio entre conteúdo, informação, aluno e interação entre os mesmos);
Locais restritos de ensino. Locais diversificados para o ensino (sala de aula, laboratório de informática e outros).
Referências: PRADO, Maria Elisabette B B ; VALENTE, J.A. . A formação na ação de professor: uma abordagem na e para uma nova prática pedagogica. In: VALENTE, JA. (Org.). Formação de educadores para o uso da informática na escola. Campinas: NIED/UNICAMP, 2003, v. 1, p. 21-38.

Contudo, um ponto que deve ser discutido aqui está relacionada a postura mais ativa do aluno no processo. Quando tratamos de ensino fundamental, esse processo torna-se aplicável com relativa facilidade em detrimento do ensino médio. Neste caso, o papel do aluno, dos pais e dos professores é de uma corrida contra o tempo para “preparar” os vestibulandos, então toda aquela “educação bancária” (como nos lembra Paulo Freire) se apresenta como um processo bem mais arraigado. Então, uma postura mais ativa do aluno passa a ser quase que descartada e ele se torna então um ávido por informações que possam vir a estar na sua prova no “dia D”. Além do fato de questionamentos excessivos às vezes irritam alguns professores que, pressionados por datas muito importantes, preferem não dar ouvidos a questionamentos e, apenas ministrar o seu conteúdo sem muitas objeções. Quando muito, com algumas dúvidas bem específicas de cada caso. Temos aí, então, uma necessidade de uma mudança na nossa personalidade e na nossa visão de ensino.

É de Piaget o postulado de que o pleno desenvolvimento da personalidade sob seus aspectos mais intelectuais é indissociável do conjunto das relações afetivas, sociais e morais que constituem a vida da instituição educacional. E esse desenvolvimento desemboca em sua totalidade no processo educacional e gera novas necessidades a cada período da nossa História.

Novas necessidades estão surgindo com o novo tipo de estrutura social e política que estamos vivendo. O mundo globalizado nos impõe os mais diversos desafios. O principal dos desafios é o espírito de competição acirrada que, em muitos casos, é confundido com “degladiamento intelectual”, isto é, cada um vivendo como destruidor de si próprio e, em muitos casos, de idéias. No entanto, principalmente quando observamos pessoas com menos acesso à informação, as palavras de Maturana tornam-se quase proféticas: “As culturas são conservadoras, de tal modo que uma mudança pode ser imperceptível, no sentido de que uma pessoa não se dá conta porque as condições de vida vão mudando, ou mudam as condições de vida sem haver mudança cultural [...] penso que seja o que acontece com a tecnologia da comunicação atualmente. Ou porque há situações que são comoventes que faz com que alguém se pergunte por que está vivendo de um modo que não gosta, de estar vivendo num determinado momento.”.

Quando entramos no campo mais específico da escola, um grande leque de opções metodológicas se nos apresenta e cabe a nós estarmos abertos ao conhecimento de aprendizado de várias mídias diferenciadas. No entanto, a aplicabilidade das opções que temos em mãos precisa (ainda) ser analisada pelos olhos críticos do tradicionalismo que nos mostram os seguintes desafios: o número de alunos, o tipo de material disponível, o tempo de duração das aulas e a estrutura e funcionamento do processo ensino – aprendizagem (ainda muito burocrático e arcaico).

Com relação ao parágrafo anterior, um dos grandes vilões do tradicionalismo chama-se currículo, termo utilizado pela primeira vez (no sentido que conhecemos) em Professio Regia de 1575, 50 anos antes da Didatica Magna de Comenius. O currículo, no sentido de separar o que deve ser aprendido e em que idade deve ser aprendido, pertence a uma época pré-digital. Podemos atrelar essa postura à de Skinner na sua época. E perdura até os dias de hoje, onde as crianças nascem com níveis de aprendizagem e exigências intelectuais diferentes daquela época. Ele será substituído por um sistema no qual o conhecimento pode ser obtido quando necessário e prazeroso para quem está no caminho do autodidatismo. Qualificações serão baseadas no que as pessoas tiverem feito, produzido.

Com as novas propostas de educação que estamos tendo acesso, a flexibilidade do currículo se torna necessária e será cada vez mais maleável com o avançar dos tempos. Desta forma, para que esta flexibilidade ocorra, toda uma estrutura deve ser revista, principalmente quando experimentamos o educação na iniciativa privada, onde há um conjunto de técnicos que orientam os professores a preencherem um conjunto de informações numa folha pré – moldada para aquele fim sem muito espaço para outras observações. Isto quando ela já não vem pronta por algum colega de áreas que, por algum motivo que lhe é peculiar, acredita que o currículo mais adequado para determinada turma seja aquele que ele “criou” e que não é passível de comentários ou sugestões, visto que a escola “já adota aquele currículo há anos e vem dando certo”. Desta forma, contrariá-lo é provocar um conflito na equipe.

A partir da nova ordem da informação, a educação começa um processo de transição visando um fluxo maior destas informações (independentemente da faixa etária) atingindo uma parcela maior da população. No entanto, outras barreiras surgem aqui: a maturidade das pessoas, a sua motivação e o poder aquisitivo. O UCA (Um Computador por Aluno), projeto da atual gestão do governo federal brasileiro está iniciando um processo de quebra das barreiras mencionadas anteriormente. É um fato certo que o processo é lento; no entanto os primeiros passos já estão sendo dados.

Segundo Papert:Acho que antes as pessoas eram mais resistentes. Quando as tecnologias eram caras e distantes, qualquer proposta parecia muito radical. Atualmente, com fácil acesso, a necessidade de se preparar para um mundo cada vez mais informatizado estimula os cidadãos a buscarem o novo. Hoje, três milhões de crianças norte-americanas deixaram escolas tradicionais e seus pais buscam outras formas de ensino, muitas vezes em suas próprias casas.” E o processo citado por Papert começa a se desenvolver em nosso país.

Apesar de atualmente as pessoas serem menos resistentes, a adoção da tecnologia e, principalmente, uma formação continuada para aprender a dominar as referidas mídias que estão à nossa disposição é muitas vezes vista pelo corpo docente como “mais uma reunião chata”. Em vários casos, os professores têm razão. A formação continuada que as escolas propõem para seus profissionais não passa, em muitos casos, de questionamentos longínquos da prática de cada um em sala de aula abordando sempre os mesmos problemas sem se dar conta que o fim é buscar soluções para esses problemas e não identificá-los. Todos os professores com o mínimo de experiência já sabem quais os problemas da escola até mesmo antes de entrar nelas; o que muitos desconhecem é como resolver esses problemas.

Como conseqüência desse fluxo desenfreado de informações e da quantidade de tarefas que foram aumentando com a passar dos anos, o ensino a distância (partindo de uma perspectiva bem elementar) tem início, aqui em nosso país, a partir da década de 70. O ensino por correspondência da Marinha, a criação da Fundação Roquete Pinto e o Instituto Universal Brasileiro são as primeiras iniciativas neste aspecto.

Com o avanço da tecnologia e a chegada desta na escola, pesquisas educacionais começam a se desenvolver com o intuito de fomentar a melhoria do processo de ensino – aprendizagem em todos os níveis. E são exemplos disso: a chegada da internet às escolas e a criação de ambientes virtuais de aprendizagem.

A chegada das novidades às escolas traz um ânimo novo ao processo educacional, inclusive para alunos e professores. Vygotsky dizia que “o pensamento propriamente dito é gerado pela motivação, isto é, por nossos desejos e necessidades, nossos interesses e emoções. Por trás de cada pensamento há uma tendência afetivo-volitiva. Uma compreensão plena e verdadeira do pensamento de outrem só é possível quando entendemos sua base afetivo-volitiva”. E é essa nova motivação que fará com que alunos tenham mais curiosidade ao aprender e professores se qualifiquem melhor para suprir uma nova demanda do mercado: a informação e, acima de tudo, a formação de si e de seus alunos.

Para o nosso aluno, a tecnologia tem, acima de tudo, um papel de inclusão grupal. Aquele colega que não conhece os sites de relacionamento, não domina o celular de última geração e etc..., está  - quase que - condenado  a ser menosprezado pela turma. Cabe a nós identificar o meio adequado de, salutarmente, utilizarmos essa característica do jovem que passa pelas nossas aulas. Muitos de nós ficamos de fora dos grupos dos alunos e somos taxados por eles com títulos menos dignos por que ainda não nos incluimos nesse contexto e, principalmente, não aprendemos a utilizá-lo ao nosso favor. Esse é o grande salto que temos que dar.

Com as novas motivações, o espírito inventivo do ser humano mais uma vez se coloca à disposição do desenvolvimento. O fascínio pela inventividade humana acompanha a história da humanidade desde a Antiguidade. No entanto, muitas dúvidas ainda pairam sobre essa fabulosa possibilidade humana, sendo que se faz necessário a ampliação das investigações científicas sobre ela. No entanto, é mister que sempre que a evolução é necessária, o espírito inventivo e criador do ser humano se apresenta na sua vertente benigna ou maligna. Nosso caráter é que define o caminho que se deve tomar. Os antigos filósofos relacionavam a criatividade à inspiração divina, portando, fora do controle humano. Outras vezes ela era relacionada com à loucura, à paixão, à intuição (Taylor, 1993).

Humberto Maturana (1991) define a criatividade como um presente da sociedade. Pois cada vez que essa mesma sociedade pensa que o ser humano fez alguma coisa nova, e valiosa, que surge da espontaneidade do viver, ela o define como um agente criativo.

Toda essa reflexão nos remete a uma fala de Papert: “Precisamos saber como enfrentar um problema inesperado para o qual não há uma explicação preestabelecida. Precisamos adquirir habilidades necessárias para participar da construção do novo ou então nos resignarmos a uma vida de dependência. A verdadeira habilidade competitiva é a habilidade de aprender. Não devemos aprender a dar respostas certas ou erradas, temos de aprender a solucionar problemas”.

A educação na sociedade da informação deve ser um fator que promova a igualdade social além do desenvolvimento pessoal e coletivo; um direito básico adquirido após anos de evolução e não unicamente um produto mercadológico que os grandes conglomerados digitais nos fazem engolir. Nós, professores temos, além de tudo, o dever de tentar mostrar aos nossos alunos que as novas tecnologias não devem agravar as divergências sociais existentes. Cabe questionarmos se estamos preparados para este caminho.