Comando de Libertação Nacional

Por Antonio Gasparetto Junior
O Comando de Libertação Nacional foi uma organização guerrilheira que atuou no Brasil durante a Ditadura Militar.

No início da década de 1960, a tensão da polaridade capitalismo/socialismo provocada pela Guerra Fria se estabeleceu no Brasil trazendo graves consequências para o cotidiano do país. Após a renúncia do presidente eleito Jânio Quadros, seu vice, João Goulart, assumiu o comando para completar o mandato em vigência. O novo presidente, contudo, defendia amplas reformas de base no Brasil, com destaque para a reforma agrária. No contexto da política internacional, Jango, como era popularmente chamado, pretendia desenvolver uma política neutra, relacionando-se simultaneamente com líderes de países capitalistas e com líderes de países socialistas. Os conservadores do país logo se uniram contra o presidente, suas propostas de reforma e sua maneira de se relacionar politicamente. Jango foi acusado de alinhamento com o socialismo e o movimento de oposição cresceu até que os militares, através de um golpe, tomaram o poder, em 1964. Iniciava assim um período de repressão, o governo militar.

O autoritarismo do novo governo foi sentido logo nos primeiros momentos. Indivíduos ligados a ideologias de esquerda foram perseguidos, aprisionados e, muitas vezes, mortos. Mas isso não impediu a formação de grupos que defendiam o fim do regime militar ou mesmo que pretendiam instalar um governo socialista no Brasil. Um desses grupos de resistência foi o Comando de Libertação Nacional, também conhecido simplesmente pela sigla COLINA. Tratava-se, na verdade, de uma organização guerrilheira de extrema-esquerda com o claro objetivo de instalar um governo socialista no país.

O Comando de Libertação Nacional foi fundado em 1967, no estado de Minas Gerais, numa época em que a repressão se tornava cada vez mais intensa. Sua origem foi o resultado da fusão da Organização Revolucionária Marxista Operária (Polop), que deu origem também a várias outras organizações de esquerda, com militares que estavam contra o sistema. O COLINA seguia os ideais da Organização Latino-Americana da Solidariedade (OLAS), que era uma entidade internacional com o objetivo de estender algumas ideias do revolucionário Che Guevara, e adotava como prática táticas de guerrilha para alcançar seus objetivos. Suas ações começaram em 1968 e o grupo ficou conhecido por tentar fazer justiça à morte de Che Guevara, cujo assassino teria sido o militar boliviano Gary Prado. No início do mês de julho daquele ano, alguns revolucionários membros do COLINA assassinaram um indivíduo no Rio de Janeiro que acreditavam ser o executor de Che Guevara. João Lucas Alves, Severino Viana Colon, José Roberto Monteiro e Amílcar Baiardi, no entanto, se equivocaram e assassinaram Edward von Westernhagen, major do Exército alemão. Embora o grupo não tenha assumido a autoria do atentado, João Lucas foi preso no mês de novembro e torturado até a morte. Pouco tempo depois, Severino Viana Colon foi o segundo a morrer.

O Comando de Libertação Nacional continuou em atividade e esteve envolvido, em 1969, em outro evento de repercussão. Em janeiro daquele ano, alguns de seus militantes se envolveram em um tiroteio com a polícia civil de Minas Gerais, resultando na morte de dois policiais. A busca pelos integrantes do grupo aumentou e seus líderes foram aprisionados. De acordo com novos documentos revelados pela Comissão da Verdade, um dos dirigentes do COLINA, Murilo Pezzuti, serviu como cobaia nas aulas de tortura da Vila Militar, no Rio de Janeiro.

Muito embora as lideranças do COLINA tenham sido aprisionadas em 1969, o grupo não deixou de existir. Na verdade, os remanescentes se uniram a ex-membros da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) e fundaram a Vanguarda Armada Revolucionária Palmares (VAR-Palmares), uma das organizações de extrema-esquerda do regime militar de maior repercussão e que teve como membro o ex-marido da presidente Dilma Rousseff, por exemplo.

Fontes:
SILVA, Isabel Cristina Leite da. Comandos de Libertação Nacional: oposição armada à ditadura em Minas Gerais (1967-1969). Dissertação de Mestrado defendida na UFMG. Belo Horizonte: UMFG, 2009.
http://www.desaparecidospoliticos.org.br/pagina.php?id=365&m=15