Medicina medieval

O período que se segue ao fim do Império Romano foi marcado pela forte presença da expansão e consolidação do cristianismo pela Europa. A medicina, como outros setores da vidas das pessoas, foi influenciada pelo Cristianismo. Segundo Faith Wallis, o Cristianismo ajudou a definir doença e cura, a partir da perspectiva de que a religião cristã é a cura, ou seja, a salvação das pessoas. Assim, o papel de curar era muito relacionado a representantes da fé cristã. A Regra de São Bento, escrito pelo monge Bento de Núrsia (480-547), por exemplo, descreve a disciplina e organização numa comunidade monástica cristã, e dentre as funções dos monges, cuidar os doentes era uma delas. Neste livro, a cura efetuada no monastério era a de doenças espirituais, nas quais o tratamento incluía banhos, sauna e massagens que limpavam a corrupção dos humores, o que denota a influência da Medicina Grega Antiga, com o uso da teoria humoral de Hipócrates.

A compreensão dos monastérios cristãos variava de acordo com as influências sofridas pelas ordens religiosas nas regiões geográficas e temporalidades em que se encontravam. O livro Lorsch Leechbook, escrito em 795, na Abadia Beneditina de Lorsch, reforça que a cura verdadeira pode ser feita através de Deus, e que o médico deve prognosticar a condição da saúde das pessoas. Já o Leechbook de Bald, também conhecido como Medicinale Anglicum, escrito no século IX, possui tratamentos de doenças e algumas das enfermidades, atribuindo suas causas a elfos e goblins.

Durante século X, algumas das vertentes cristãs acreditavam que o fim do milênio traria o apocalipse, e estes que acreditavam nisto foram denominados de milenaristas. Estes acontecimentos, então, somados à peste negra e doenças epidêmicas, eram doenças promovidas pelo Juízo Final. Johann von Winterthur (1300-1350), frade franciscano, escreveu Die Chronik Johann von Winterthur que relaciona o contagio massivo de peste negra de 1348, como provas do Apocalipse.

A medicina, a partir do século XI, torna-se sinônimo de physica (em latim quer dizer estudo da natureza). Este período que foi marcado pela expansão do Império Árabe-Islâmico para Europa, os quais qual trazem alguns tratados médicos e filosóficos dos gregos, bizantinos e indianos, e também seus próprios tratados e comentários sobre os tratados gregos. O pioneiro que introduziu os escritos e traduções médicos árabes, na Europa, foi Constantino, o Africano (1020-1087), de acordo com Lidiane Alves de Souza. A presença árabe influenciou a retomada do estudo da anatomia, e conectar conhecimentos sobre teoria humoral, astronômia e fisiologia. O livro Pantegni, de Ali Ibn Abbas (982-994), traduzido por Constantino do árabe para latim, era a primeira parte do Livro Completo da Arte Médica (originalmente Kitab al-Maliki), escrito no século X, e já apresentava estudos da anatomia genital e reprodução.

A Escola de Salerno foi a primeira Universidade de Medicina, na Europa, que teve seu apogeu durante do século XI até o XIII, segundo Green. A cidade de Salerno era geograficamente próxima ao Mar Mediterrâneo, e sofreu várias conquistas neste período, e contava com comércio muito próximo entre judeus e árabes. Em 1070, Constantino, o Africano foi a Salerno e iniciou o primeiro contato dos escritos traduzidos por ele, nos quais contribuiu para formação do repertório e estudos desenvolvidos na Escola de Salerno. Dentre os temas mais pesquisados na Escola de Salerno estão a medicina feminina, que foi explorado em vários livros médicos produzidos nesta Universidade. Estes assimilavam várias contribuições teóricas e práticas da medicina árabe, e da medicina antiga grega e latina, que foram testadas de forma empírica neste espaço.

Bibliografia:

CONRAD, Lawrence. The Western Medical Tradition: 800 BC to AD 1800, Volume 1. Cambridge: Cambridge University Press, 1995, 556 pgs.

GREEN, Monica H. The Trotula: A Medieval Compendium of Women's Medicine. Pennsylvania: University of Pennsylvania Press, 2013, 320 pgs.

HORROX, Rosemay. The Black Death. Manchester: Manchester University Press, 1994, 364 pgs.

SOUZA, Lidiane Alves de. Incompleto e imperfeito: as representações corporais femininas na literatura médica (século XIII). Dissertação. Goiânia, 2012, 133 pgs.

WALLIS, Faith. Medieval Medicine: A Reader. Toronto: University of Toronto Press, 2010, 563 pgs.

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