Revolta de Ibicaba

Por Antonio Gasparetto Junior
A Revolta de Ibicaba foi uma manifestação de trabalhadores estrangeiros contra a exploração do trabalho.

Em meados do século XIX, a mão-de-obra escrava começou a ser restringida no Brasil. Impulsionados por leis e proibições inglesas, os políticos brasileiros também promulgaram medidas que reduziam a capacidade de comércio escravo. As novas imposições contra o trabalho compulsório fizeram crescer o interesse por outro tipo de trabalhador no país, o estrangeiro. Este, de preferência europeu, era contratado para trabalhar, geralmente, em fazendas de café.

Entre os anos de 1847 e 1857, o senador Nicolau de Campos Vergueiro trouxe aproximadamente 180 famílias de diversas regiões da Europa para trabalhar na lavoura brasileira. O próprio político preparava o contrato de prestação de serviço que os imigrantes deveriam assinar para trabalhar no Brasil. Através deste documento, ficava estabelecido o que seria de propriedade do fazendeiro, livre para comercializar o produto da maneira que desejasse, e também o que caberia à família dos trabalhadores. No entanto, essa relação que se estabelecia com o trabalho incluía uma série de medidas exploratórias.

Os cafeicultores brasileiros, acostumados com a exploração do trabalho escravo, reproduziam seu autoritarismo e ganância com o trabalhador estrangeiro. De acordo com a cultura da época, o proprietário de terras tentava extrair o máximo possível de seus funcionários, o que deixava o imigrante, livre e assalariado, em situações de tamanha exploração que se assemelhava ao trabalho escravo. A relação de exploração com o trabalhador estrangeiro começava já na assinatura de contrato para vir trabalhar no Brasil, pois a família do imigrante tinha de se responsabilizar em pagar os custos de sua viagem para o país. Este valor ainda era acrescido de juros de 6% ao ano. Só isso já causava grande ônus à família, pois, durante muito tempo, seria preciso trabalhar para quitar essa dívida. Para piorar a situação, os imigrantes contratados trabalhavam em terras de baixa produtividade, o que os obrigava a comprar alimentos básicos que eram vendidos pelo fazendeiro que os contratava. Ou seja, o trabalhador estrangeiro se tornava uma espécie de refém do sistema, criando uma dívida imensa e progressiva com o cafeicultor contratador .

Em vista desse quadro de exploração do trabalho, os imigrantes que trabalhavam na principal propriedade do senador Nicolau de Campos Vergueiro, a fazenda Ibicaba, se revoltaram. Orientados por Thomas Davatz, um líder religioso da comunidade, os europeus mobilizaram-se na expectativa de se tornaram pequenos ou médios proprietários, como desejavam ao sair da Europa. A chamada Revolta de Ibicaba ganhou repercussão e conseguiu ser notada pelo império brasileiro. Em função dela as relações de trabalho foram revistas e remodeladas. Todavia, não refletiu na grande e efetiva qualidade de vida desses trabalhadores estrangeiros, tampouco no direito de propriedade para todos eles, porém serviu para restringir a exploração excessiva que ocorria.

Fonte:
HEFLINGER, José Eduardo. A Revolta dos Parceiros na Ibicaba. São Paulo: Unigráfica, 2010.