A estatização da fé islâmica e o poder politico religioso no Irã

Por Cristiano Pereira dos Santos
A relação Religião e Estado sempre estiveram em pauta dentro das relações internacionais até mesmo porque o Estado laico não quer dizer necessariamente um estado sem Deus ou um povo sem Fé.

No Caso Iraniano esse se intensificou por um processo que iniciado  em 1502, quando ao assumir o controle de boa parte do território persa o Xá Ismail, que foi proclamado chefe da dinastia safávida, na capital Ardabil, em um de seus primeiros atos declarou o islamismo xiita como religião oficial do Estado ele usou o xiismo para construir um Império que, passados dez anos da sua criação incluía não só a maior parte do Irã moderno como também se estenda pela Ásia Central, Bagdá, pelo Cáucaso e Golfo Pérsico.

Durante o reinado deste Xá, a Pérsia emergiu não só em termos políticos bem como espirituais. Com intenção de converter a população através  da força. Para acelerar esse processo Ismail e seus sucessores foram buscar no Afeganistão, Síria e Bahrein os Ulemás (professores religiosos e conselheiros do governo).

Com a participação no governo do Estado e como autorização para arrecadar impostos eclesiásticos,  uma elite independente, rica, com uma poderosa base de poder e força política foi produzida.

O fato de o Irã ter sido governado por lideres fracos e interesseiros acabou por levar as potências estrangeiras a assumirem o controle do país e preencher o vácuo de poder deixado pelos reis, à corrupção generalizada provocou uma ruptura entre a monarquia e o povo, o Irã se afundou cada vez mais na pobreza e na dependência externa, uma sede de mudança nascia nas consciências dos iranianos.

Os religiosos assistiam a escalada do domínio estrangeiro com apreensão, até que em 1890 a submissão do imperador persa aos interesses da Grã-Bretanha e da Rússia se desdobrou em um polêmico acordo comercial entregandoo monopolio do tabaco causando indignação ao corpo de religiosos da Pérsia.

 No ano seguinte, inspiradas pelos mullahs (lideres religiosos locais), diversas cidades protestaram contra a concessão do monopólioaos Brtanicos. Em uma demonstração pública de prestígio e poder político o mujtahid (espécie de juiz da lei islâmica) Hajj Mirza Hassan Shirazi lançou uma fatwa (decisão jurídica) proibindo o consumo de tabaco. Pouco tempo depois, transgredindo a autoridade de Nasir ad-Din, a maioria da população do império havia deixado de fumar, inclusive as esposas do Xá pois tal era o poder adquirido pelos religiosos. Essa mobilização de variados setores da sociedade persa contra o imperador, ficou conhecida como a Rebelião do Tabaco, levou o governo a cancelar o monopólio inglês no início de 1892. 

Junto á Revolta do Tabaco, veio uma consciência política entre os iranianos que cresceu consideravelmente. Crendo que Ala mandava que os líderes governassem de forma justa (um dogma central da doutrina xiita) levou muitos a aclamarem as idéias de soberania popular. Assim, em Dezembro de 1905 surgiu uma exigência surpreendente nas mentes dos que mais contestavam a dinastia Qajar, a criação de uma assembléia consultiva para assegurar que as leis eram aplicadas todas da mesma forma em todas as regiões do país. Tomando em consideração a relutância do Xá Muzzaffar AL-Din, os protestos endureceram e os líderes religiosos islâmicos assumiram o papel principal da contestação e finalmente o Xá concordou, embora com a condição de que as leis aprovadas pelo Majlis (parlamento) tivessem de ser antes assinadas pelo Xá para entrarem em vigor.

Naquele período a constituição com maior prestígio na Europa era a constituição Belga que foi adotada como modelo pelos iranianos por ser considerada a mais progressista.
Antes de ver a aplicabilidade da constituição o Xá Muzzaffar al-Din morreu assumindo em seu lugar o Xá Mohammed Ali que estava preocupado com essa onda modernista, aproveitando que havia uma divisão entre os mullahs e os reformistas porque os primeiros achavam que eles estavam se distanciando muito da lei dos profetas.

Cristiano P. Santos, Bacharel em Relações Internacionais.

Bibliografia.
ARON, Raymond. Paz e Guerra Entre as Nações. Editora Universidade de Brasília, 1979.

GORDON, Mathew. Os Grandes Líderes: Khomeini. RJ: Nova Cultural, 1987.

ZACCARA, Luciano. Los Enigmas de Iran: Sociedad y Política en la República Islâmica. Buenos Aires: Capital Intelectual, 2006.

http://unstats.un.org/unsd/wsd/Country.aspx?id=IRN.