Anadiplose

Leia este trecho do romance Iracema, de José de Alencar:

“Além, muito além daquela serra, que ainda azula no horizonte, nasceu Iracema.

Iracema, a virgem dos lábios de mel (...)”.

Observe que o escritor, nesses dois parágrafos que dão início à obra, utiliza de um recurso estilístico para dar ênfase à personagem cuja história é contada neste romance: ele inicia o segundo parágrafo com a mesma palavra utilizada no fim do primeiro parágrafo, repetindo, na sequência acima “Iracema, Iracema”, conforme foi sublinhado.

A esse recurso estilístico enfático chamamos anadiplose, figura de linguagem que consiste na repetição de termos já dispostos num fim de frase, ou verso, no início de uma sentença seguinte.

Veja outro caso de anadiplose neste trecho de uma cantiga retirada do romance “As Pupilas do Senhor Reitor”, do escritor português Júlio Diniz:

“Morena, morena

De olhos galantes

Teus olhos, morena

São dois diamantes:

 

São dois diamantes

Olhando-me assim

Morena, morena

Tem pena de mim”.

Ferreira Gullar também se utiliza deste recurso ao escrever o poema “Ovni”:

“(...) Eu guardo o espelho

o espelho não me guarda

(eu guardo o espelho

a janela a parede

rosa

eu guardo a mim mesmo

refletido nele):

sou possivelmente

uma coisa onde o tempo

deu defeito”.

Cruz e Sousa, poeta parnasiano, também utiliza a anadiplose nos seus versos:

“Sonho Profundo, ó Sonho doloroso,

doloroso e profundo sentimento!

Vai, vai nas harpas trêmulas do vento

chorar o teu mistério tenebroso”.

Já Caetano Veloso repete uma expressão que se encontra no meio de um verso:

“Um índio descerá de uma estrela colorida brilhante

De uma estrela que virá numa velocidade estonteante”.

Manuel Bandeira também utiliza o recurso da anadiplose, no poema “O Grilo”, escrito em forma de diálogo:

- Grilo, toca aí em solo de flauta.

- De flauta? Você me acha com cara de flautista?

REFERÊNCIAS:

Literatura em Minha casa: Meus primeiros versos. Vol. 4. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 2001.

NICOLA, José de. Lingua, Literatura e Redação. 5ed. São Paulo, Scipione, 1995.

SAVIOLE, Francisco Platão. Gramática em 44 lições. 15 ed. São Paulo, Ática, 406

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