Por Ana Lucia Santana |
Os anjos resgatam, na literatura para adolescentes, a velha dicotomia nos debates sobre a natureza humana. Nos vampiros é possível encontrar em íntima interação as luzes e as sombras, o bem e o mal; já os seres angelicais instauram novamente a antiga oposição entre estes mesmos valores, seguindo a cartilha teológica que separa de um lado o trigo, do outro o joio que será queimado.
Em plena era pós-moderna, quando a espiritualidade se esvai cada vez mais da educação e do coração humano, a emergente literatura dos anjos se esforça para preencher este vácuo com preceitos dogmáticos, principalmente ao recriar o fantasma das tragédias apocalípticas, materializadas, dos anos 50 até o início da década de 90, na sinistra possibilidade de uma catástrofe nuclear, potencializada pela Guerra Fria e reduzida drasticamente com a queda do Muro de Berlim, no dia 3 de outubro de 1990.
Hoje, este discurso soa um tanto anacrônico, e um investimento em histórias apocalípticas não ajuda a resgatar os valores de que a sociedade contemporânea necessita, nem mesmo satisfaz plenamente a sede de fantasia e encantamento presente no coração humano, principalmente o do adolescente, leitor disputado acirradamente pelo mercado de best-sellers.
Esta literatura não é uniforme. Há os mais românticos e próximos do universo do leitor alvo destes livros; isto porque eles se passam no ambiente escolar e são protagonizados por jovens com os quais o público adolescente se identifica. É o caso da obra Sussuro, de Becca Fitzpatrick, que apresenta o anjo Patch, um renegado meio sádico que atrai a heroína Nora Grey, que não tinha a intenção de se apaixonar, mas, quando se dá conta, está não só envolvida com o misterioso colega de classe, mas também em eventos que fogem ao seu controle.
Outro livro no mesmo gênero é Fallen, de Lauren Kate, que está em vias de ser convertido para as telas da sétima arte. Nele, Daniel Grigori é o anjo rebelde que seduz a jovem Lucinda. Desta vez a trama se passa em um reformatório, mas os personagens estão muito próximos dos leitores da obra.
Outra vertente desta literatura é a que se pretende mais densa e complexa, como o livro de Danielle Trussoni, Angelogogia, e o de Eduardo Spohr, A Batalha do Apocalipse - da queda dos anjos ao crepúsculo do mundo. Em ambos os anjos são seres do mal que têm como objetivo eliminar a Humanidade, e suas páginas são recheadas de elementos simbólicos, religiosos, e de referências ao ocultismo.
No primeiro a história se passa em Nova York e os terríveis Neffilins, adeptos de uma seita misteriosa, a sociedade de Angelologistas, se infiltram entre os humanos com o intento de destruí-los. À heroína, irmã Evangeline, uma devota franciscana, cabe descobrir quem são estes anjos malévolos e revelar sua presença entre os homens.
Na obra de Eduardo, que figura entre os mais vendidos em todo o mundo, o apocalipse se reveste de sua imagem mais tradicional, o embate entre os anjos celestiais e os seguidores de Lúcifer pelo domínio do Universo criado por Deus. O protagonista, o rebelde anjo Ablon, envolve-se com a bruxa Shamira e, ao mesmo tempo, se habilita à luta contra as tropas do Criador.
Cabe ao leitor decidir se ele vai percorrer as páginas destas obras somente por entretenimento, ou se encontrará realmente algo que o prepare para viver com dignidade no mundo atual e, mais que isso, se esta leitura lhe proporcionará uma maior compreensão de sua existência e devolverá à morte e à espiritualização seu status natural na vivência de cada um.
Fontes:
http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI161943-15230,00-OS+ANJOS+VOLTARAM.html
http://pt.shvoong.com/books/romance/2009336-sussuro-hush-hush/
http://www.sobrelivros.com.br/info-fallen-lauren-kate/
| Data de publicação: Categorias: Literatura |
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