A Morte na Série Harry Potter

Esta saga se inicia sob o signo da morte, pois é justamente o assassinato dos pais do protagonista, Lílian e Tiago Potter, nas mãos do terrível Lord Voldemort, que dá origem ao mito em torno do bebê Harry Potter, que, inexplicavelmente, não só sobrevive à tentativa de homicídio por parte do adversário de sua família, como também o aniquila, levando o feitiço que emana da varinha do bruxo perverso a se virar, literalmente, contra ele mesmo, destruindo seu corpo.

Da morte dos pais, que morrem para defender o filho, irradia a única arma que pode destruir o gênio do mal, o amor; é este ato de abnegação que transforma Harry Potter no ‘Menino que sobreviveu’. Há um ciclo, portanto, nesta série, que converte a morte em vida, como no episódio em que mais uma vez o protagonista escapa de um fim trágico ao ser defendido por seu padrinho, Sirius Black, que sacrifica sua vida para salvar a do afilhado.

Outro ponto importante é a ideia fixa de Voldemort com a imortalidade; aliás, coincidência ou não, ele traz em seu próprio nome a lembrança da morte, da qual ele foge obsessivamente. Voldemort tem o sentido de ‘vôo da morte’ nas línguas latina e francesa; no catalão ele significa ‘roubar a morte’.

É esta sua busca que permeia todas as aventuras de Harry Potter, a quem o vilão está intimamente ligado desde o momento em que perdeu o corpo físico, uma conexão que está marcada a ferro e fogo na testa do garoto, que, através deste sinal, uma cicatriz em forma de raio, mantém, ainda que inconscientemente, uma intensa sintonia com Voldemort.

A morte está profundamente ligada ao amor nesta trama, pois é através deste sentimento único que Lílian Potter derrota seu perseguidor; é esta mesma emoção que motiva a doação de Sirius, e também de outros personagens importantes que morrem, a cada episódio, em nome da luta de Harry contra a ameaça representada pelo feiticeiro contra o universo dos bruxos de Hogwarts.

Apesar do tema da morte estar presente desde o início da saga criada pela autora britânica J. K. Rowling, o desaparecimento de personagens significativos, muito próximos de Harry, se dá a partir do quarto livro, Harry Potter e o Cálice de Fogo, no qual um de seus companheiros morre ao tentar defendê-lo.

Em Harry Potter e a Ordem da Fênix, seu padrinho Sirius Black é atingido por uma maldição fatal – Avada Kedavra -, lançada por sua prima Beatriz Lestrange, que o fulmina imediatamente; aliás, o objetivo máximo deste feitiço é justamente a morte do adversário. Um destaque também para o título escolhido pelos seguidores de Voldemort, os Comensais da Morte, expressão que remete à ideia de uma comunidade organizada em torno do propósito de levar a morte aos seus inimigos.

No livro Harry Potter e o Enigma do Príncipe, a autora surpreende o leitor com a partida de um dos personagens mais importantes, revelando, mais uma vez, o quanto a sobrevivência do protagonista e do universo de Hogwarts depende essencialmente da morte de alguns; mais que isso, ela reafirma que ninguém está livre deste destino.

Enquanto nos demais volumes da saga a morte atinge apenas um personagem significativo, em Harry Potter e as Relíquias da Morte ela se torna mais voraz, atingindo incessantemente os dois lados, as luzes e as trevas. Ela está presente igualmente na busca desesperada de Harry e seus amigos pelas horcruxes, objetos nos quais Voldemort teria depositado fragmentos de sua alma, mutilada em várias partes pelo próprio bruxo das sombras.

Na própria busca pelas relíquias a morte está onipresente, a partir do conto que dá origem a este mito, a História dos Três Irmãos, desenvolvida por J. K. Rowling em sua obra Os Contos de Beedle, o Bardo. Nesta trama a Morte é a protagonista, e confere uma recompensa a três irmãos que, por meio de encantos e magias, atravessaram ilesos um rio no qual todos sucumbiam. Os objetos doados por ela aos rapazes foram a Varinha das Varinhas, a Pedra da Ressurreição, incrustada no Anel de Servolo Gaunt, e o Manto da Invisibilidade.

É importante também destacar que o próprio Harry, apesar de ser o protagonista da história, é constantemente assediado pela morte, principalmente através da estranha ligação entre sua mente e a de seu adversário; e, sobretudo, por conta de uma estranha profecia, a qual revela o quanto Harry e Voldemort estão conectados, e que a sobrevivência de um implica na morte do outro. Os laços entre ambos são tão estreitos, porém, que talvez a destruição do garoto leve ao desaparecimento de seu adversário, e vice-versa. De qualquer forma, talvez a passagem pela morte seja necessária para o renascimento da luz e da vida. Cabe ao leitor conferir por si mesmo.

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