Força Poética de Camilo Pessanha

Os términos de amores causam verdadeiras catástrofes, naufrágios sentimentais, dos quais Camilo Pessanha recolhe fragmentos eruditos, com extremo cuidado para não marcar expressões sentimentais que pudessem ser previsíveis: “na fria transparência luminosa”, ou a lucidez de “róseas unhinhas que a maré partira.../ Dentinhos que o vaivém desengastara..../ Conchas, pedrinhas, pedacinhos de ossos...”. O ritmo que o autor impõe ao seu trabalho é como a água que lhe serve de imagem, ou seja, inodoro e incolor. Fica interessante observar que seus versos decantam a personalidade, e que isso em sua época se generaliza a uma parte dos líricos, e se estende até a atualidade.

Podem-se notar em sua poesia duas vertentes, por um lado a erudição do vocabulário, um neo-romantismo cavaleiresco, que pode estar ligado à ascendência paterna portadora de brasão; por outro lado, a infância rural, a aceitação do destino e uma esperança que vai morrendo, a paixão palpitante que é um resto de vida como ossos, fósseis, entre as coisas inertes. Essas referências são de um poeta assim, que viveu muito tempo em Macau e ali fez estudos e traduções sobre a civilização e a literatura chinesas, (China, 1944), e que nos legou o melhor conjunto de poemas simbolistas portugueses, apesar de que só viessem a ser publicados em 1922 sob o título de Clepsidra.

Esses mesmos poemas foram aumentados e reeditados em 1945. A arte de Pessanha é meticulosa quanto ao tratamento musical e evocativo do verso, e seus sonetos foram lançados cuidadamente para que não transparecessem as inflexões que possam ser previstas das expressões sentimentais. Impera aí a ponderação e precisão na escolha de cada palavra e o equilíbrio fonético do verso, aliados à simplicidade que afina rigorosamente e se impõe na poesia portuguesa.

O trabalho do poeta refaz a perspectiva das coisas no espaço-tempo o que resulta uma partitura lírica construída a partir de exclamações e reticências, para marcar a linguagem oral e revesti-la de espontaneidade; outro aspecto significativo está no não uso do verbo como foco o que modifica a sintaxe aprendida na escola. O resultado desse jogo de palavras muito escolhidas é que se podem perceber timbres e inflexões de voz ou ainda valores articulatórios o que reflete o ineditismo dessa poesia até então desconhecida em português. A tendência musical das palavras aparece ainda reduzida a motivos visuais e auditivos (Chorai arcadas).

Fonte:
SARAIVA, A. J.; LOPES, O. História da Literatura Portuguesa. Porto: Porto, 1978.

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