Humor no Evangelho Segundo Jesus Cristo

O “Evangelho Segundo Jesus Cristo” traz uma distorção de toda uma passagem bíblica - se não dizer a maior delas – esta, que mostra o nascimento de Jesus Cristo. Carregada de um humor satírico, a história desenvolve-se em todo o ambiente original bíblico, porém com as alterações feitas, as paródias também têm seu lugar garantido em tal trama.

O paradoxo criado em torno da Bíblia e da obra de José Saramago vai além dos dogmas religiosos. Não só as modificações do segundo em relação ao primeiro ficam evidentes, mas os paralelos criados pelo autor. Ele utiliza, por exemplo, animais para criar comparações com as atitudes humanas e, não se poupa de usar termos de baixo calão, impróprios no primeiro, para expressar certas posturas das personagens. Nesse contexto encontra-se então o humor irônico, ou seja, o romance mantém uma certa essência do “verdadeiro conto”, porém utiliza-se da heresia como peça fundamental para o desenrolar do livro.

O herói permanece sendo Jesus, um homem que a principio iguala-se ao Cristo do livro sagrado e conforme a historia prossegue, recebe uma compostura diferente (a aproximação do Cristo em ser humano: pecador, com desejos da carne, etc.) daquele que era o “autentico” filho de Deus. Este que, como se sabe, é independente do diabo, mas no texto de Saramago os dois são como par oposto complementar (um dependendo do outro para manter sua bondade e/ou sua maldade). Através desses exemplos, fica claro a presença de paródia durante o desenvolvimento do livro.

A obra divide-se em trechos – alguns mais, outros menos – com humor explicito, mas como dito antes, um humor parcialmente irônico, podendo causar sentimentos extremos ao leitor, que podem variar de acordo com sua crença e/ou senso (literalmente) de humor.

A partir dessa nova visão do “Evangelho”, o qual demonstra novas facetas de todo um acontecimento bíblico, fica claro todo um tom irônico nas questões bíblicas e acreditadas (pela maioria das pessoas) até então.

As paródias são elaboradas de forma inteligente e a partir de um bom embasamento histórico da Bíblia, por ir contra toda a estruturação bíblica das decorrentes histórias encontradas na obra de Saramago. Algumas das relações estabelecidas vão ao encontro do verdadeiro conto bíblico, e outras vão de encontro a ele destorcendo todos os parâmetros que a Bíblia impôs aos seus leitores.

As informações básicas: Jesus filho de Maria e José; Jesus como símbolo de milagres (aqui menos e uns sem sucesso); Jesus crucificado. Todas elas se mantêm, porém como algumas mudanças bastante visíveis, como: mesmo mantendo relação a Deus, Jesus foi fruto de relação sexual entre José e Maria (na Bíblia Maria era virgem) e, sua crucificação foi algo premeditado por Deus e antes mesmo de Jesus morrer, ele já sabia qual seria sua sentença.

Sendo assim, como o próprio título já demonstra, este é um Evangelho que conta a história e vida de Jesus Cristo. Recheado de diálogos e cenas cheias de detalhes, a obra desencadeia-se a partir do crescimento de Cristo e toda a trama envolvida. O humor irônico ocupando seu espaço do inicio ao fim, faz com que o romance, quase por inteiro, seja uma parodia da Bíblia Sagrada.

Bibliografia:
http://www.revista.agulha.nom.br/joaovianney2.html - O sagrado e o romance em “O Evangelho Segundo Jesus Cristo”. João Vianney Cavalcanti Nuto.
http://www.uea-angola.org/artigo.cfm?ID=640 - Críticas e Ensaios. A história do filho do homem: metaficção historiográfica e intertextualidade em “O Evangelho Segundo Jesus Cristo”, de José Saramago. Cínita Moscovich Faccioli.
SARAMAGO, José. O EVANGELHO SEGUNDO JESUS CRISTO.

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