Literatura infantil estrangeira

Doutorado em Letras - Literatura e Língua Portuguesa (PUC-Rio, 2013)
Mestrado em Linguística, Letras e Artes (PUC-Rio, 2008)
Graduação em Jornalismo (PUC-Rio, 2001)

As origens da literatura como a arte de narrar histórias antecedem em muito à criação da imprensa, remontando à tradição oral dos povos, que data da Pré-História. Tais histórias costumavam ser contadas em voz alta por um narrador a um grupo de ouvintes.

A importância social dessa atividade, cuja finalidade principal é a de transmissão da cultura, gerou muitas maneiras de contar uma história, dando origem aos diversos gêneros (conto, fábula, lenda, mito, etc.).

Com o advento da escrita, podemos considerar as fábulas de Esopo e a Bíblia Judaica, ambas datadas do século VI a.C., como os dois primeiros exemplares de obras literárias destinadas a todas as faixas etárias, inclusive às crianças.

Após a criação da imprensa, em 1455 por Gutemberg, e antes do aparecimento dos primeiros livros infantis, foi lançada, em 1657, a obra Didática Magna (em Latim, Didactica Magna), de Comenius, considerada o primeiro tratado de pedagogia, didática e sociologia escolar da História. Nesse livro, o autor desenvolve um método que intitula como Tratado da Arte Universal de Ensinar Tudo a Todos, no qual o ensino seria, simultaneamente, sólido e prazeroso para alunos e professores.

Pouco depois do livro de Comenius, surgiram, de fato, os primeiros livros considerados “infantis”. Tais publicações aparecem na primeira metade do século XVIII. Entretanto, ainda no século XVII, havia narrativas que também eram dirigidas às crianças, entre elas, destacam-se as Fábulas, de La Fontaine, editadas entre 1668 e 1694, e os Contos da Mamãe Gansa, publicados em 1697 por Charles Perrault, que, curiosamente, atribuiu a autoria da obra a seu filho mais jovem.

Com o advento da Revolução Industrial e a emergência da burguesia, a criança passa a desempenhar um novo papel na sociedade, motivando o aparecimento de novos brinquedos e livros. De acordo com o pesquisador e especialista Matthew O. Grenby (2008), no Reino Unido, em fins do século XVIII, já eram publicados cerca de 50 títulos anuais destinados ao público infantil.

Entre os autores britânicos, Grenby destaca a importância de John Newbery, autor de The History of Little Goody Two-Shoes (1765), que encarna as ideias educacionais de John Locke, defensor do ensino por meio da diversão. Nesse momento, tem início a relação entre a literatura e a escola, que passa a promover e estimular a produção e circulação de livros infantis com o intuito de utilizá-los na formação de seus alunos.

No início do século XIX, mais especificamente em 1812, os irmãos Grimm editam a sua célebre coleção de contos de fadas, na qual resgatam as antigas narrativas conservadas pela tradição oral e direcionadas originalmente aos adultos. Desse modo, eles fundiram os universos popular e infantil, estabelecendo uma proposta educativa, como podemos entrever já pelo título do seu primeiro livro Histórias das Crianças e do Lar.

A partir desse momento, fica patente a predileção das crianças pelas histórias fantásticas, modelo adotado sucessivamente por Hans Christian Andersen, em seus Contos (1833), Lewis Carroll, em Alice no país das maravilhas (1863), Carlo Collodi, em Pinóquio (1883), e James Barrie, em Peter Pan (1911), entre os mais conhecidos. Outro gênero bastante apreciado é o de narrativas de aventuras, ambientadas em locais exóticos e protagonizadas por jovens destemidos, tais como As Aventuras de Tom Sawyer (1876), de Mark Twain, e A Ilha do Tesouro (1882), de Robert Louis Stevenson.

Referências:

CADEMARTORI, L. O Professor e a Literatura. Belo Horizonte: Autêntica, 2009.

CAMPBELL, J. O Herói de Mil Faces. 3ª edição. São Paulo: Pensamento, 1989.

GRENBY, M. O. Children’s Literature. Edimburgo: Edinburgh University Press, 2008.

MACHADO, A. M. Como e Por Que Ler os Clássicos Universais Desde Cedo. Rio de Janeiro: Objetiva, 2003.

MACHADO, M. Z. V.; MARTINS, A. G.; PAIVA, A.; PAULINO, G. (Orgs.). Escolhas Literárias em Jogo. Belo Horizonte: Autêntica, 2009.

MARINHO, J. M. A Convite das Palavras: motivações para ler, escrever e criar. São Paulo: Biruta, 2009.

RITER, C. A Formação do Leitor Literário em Casa e na Escola. São Paulo: Biruta, 2009.

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