Literatura moderna

O grande marco da literatura moderna, no que concerne à aparição de gêneros peculiares a esse tipo de produção, seja aquilo a que se chama de ascensão do romance, que teve seu momento no século XVIII. De acordo com Mollier, a leitura tornou mais acessível com a redução do tamanho dos livros e uso de materiais mais baratos, dos quais tornava mais acessível à compra de livros. Desta forma, a leitura e o número de leitores nesta época cresceu consideravelmente em suportes como os jornais, que colocavam trechos de romances em suas edições. Segundo Watt, Na Inglaterra, por exemplo, de 1704 a 1753, foram vendidas 43.800 cópias (e o número, em média, crescia consideravelmente).

A lucratividade da venda de periódicos e jornais influenciou, dentre outros fatores, os programas de alfabetização e letramento da época, criando um público leitor sem precedentes. Estes leitores, entretanto, diferentemente dos de épocas anteriores, que junto com os estudos de escrita e leitura receberiam ensinamentos de oratória, retórica, gramática, e outros, nada conheciam das antigas regras de produção literária. O novo público leitor, agora, incluía também a classe média, a qual cada vez mais se destacava no cenário da época.

Na França houve o desenvolvimento da imprensa por um preço barato a partir de 1836, e a introdução do romance de folhetim no rodapé do jornal, modificou as condições das vendas de jornais. Conforme Mollier, o gênero romance de folhetim foi introduzido no jornal, em que se fazia uma pré-publicação fracionada das obras de ficção nas grandes revistas literárias da época. A escolarização que se tornou efetiva na França em 1877, que contribui para que iniciasse a leitura e a escrita de romances de folhetim. Os 50 milhões de livros vendidos entre 1872 e 1889 atingiram quase todas as crianças escolarizadas.

Cabe aqui mencionar que o público leitor de romances não era peculiar apenas por aspectos económicos, mas também pelo gênero. As mulheres aparecem, a partir da ascensão do romance, como público leitor, e há, portanto, mais incentivos para que aprendam a ler, mesmo em meio à repressão por diversos grupos, os quais poderiam considerar negativamente a ideia da mulher leitora. A concepção generalizada era de que a mulher era biologicamente inferior, e que os estudos formalizados seriam a elas muito severos. O romance aparece, nesse contexto, como uma importante fonte de educação para as mulheres, que podiam, de maneira acessível, aprender sobre os mais diversos assuntos. Surgem das reações repressivas à pedagogia dos romances aqueles que afirmavam os efeitos nocivos que as histórias lidas poderiam ter sobre as mulheres. Em apoio a essa ideia, certos manicômios tinham dentre seus critérios de diagnóstico de causa da pretensa loucura a “leitura de romances”. Ainda assim, há relatos de que, entre as mulheres inglesas, o gosto por romances era universal, e da alta sociedade até ajudantes de cozinha eram vistas mulheres com livros nas mãos.

Não apenas os leitores, mas também os escritores de romances não precisavam mais conhecer as velhas regras de produção literária, e, somados, criavam um novo gênero, altamente requisitado: o romance de jornais ou folhetins, sendo que, como dissemos, cada edição publicava, em média, um capítulo de determinada história. Ao se abandonar as velhas regras de criação literária, novas se seguiram, e, conforme McKeon, esta nova teoria literária é fundada no que ele chama de “empirismo leviano”, que em muito contribuiu com a visão de produção literária que se tem na arte e na literatura moderna.

Referências Bibliográficas:

MCKEON, Michael. Generic Transformation and Social Change: Rethinking the Rise of the Novel. In:Cultural Critique, No. 1: University of Minnesota Press, 1985. p. 159-181.

VASCONCELOS, Sandra. Dez lições sobre o romance inglês no século XVIII. São Paulo: Boitempo Editorial, 2002.

WATT, Ian. The rise of the novel: studies in Defoe, Richardson and Fielding. Harmondsworth: Penguin Books, 1963.

MOLLIER, Jean-Yves. A leitura e seu público no mundo contemporâneo: ensaios sobre a história cultural. Belo Horiznte: Autêntica, 2008, 206 p.

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