Literatura nos países de língua portuguesa

Por Emerson Santiago
É curioso mencionar, mas o fato é que a literatura praticada nos países de língua portuguesa , com exceção de Brasil e Portugal, nem sempre é escrita na língua de Camões. Exemplo disso são os autores de Cabo Verde, Guiné-Bissau e Timor, onde há tradições fortes de literatura em outras línguas que não o português. Ao mesmo tempo, com a recente adoção do português como língua oficial pela Guiné Equatorial, este país não produziu coisa alguma em português, sendo que boa parte de sua produção literária está em língua espanhola, e pior, permanece na sua totalidade ainda não traduzida para o português. Ao mesmo tempo, a língua portuguesa está espalhada pelo globo, e não apenas contida dentro da entidade política conhecida como país. Assim, há importantes escritores dentro das letras portuguesas em Goa, estado indiano, Galiza, parte integrante do estado espanhol, Macau, território especial chinês, e ainda encontramos tradições literárias históricas no Sri Lanka, Malásia, Indonésia, Índia, ilhas do Caribe holandês e mesmo na Guiné Equatorial.

Ao analisar o conjunto das literaturas de língua portuguesa, a crítica e os historiadores concordam que os fundamentos desses momentos caracterizam-se pelo surgimento de movimentos literários significativos ou de obras importantes para o desenvolvimento das literaturas, entre os quais podem ser citados:

  • em Cabo Verde, a publicação da revista Claridade (1936-1960);
  • em São Tomé e Príncipe, a publicação do livro de poemas Ilha de nome santo (1942), de Francisco José Tenreiro;
  • em Angola, o movimento “Vamos descobrir Angola” (1948) e a publicação da revista Mensagem (1951-1952);
  • em Moçambique, a publicação da revista Msaho (1952);
  • na Guiné-Bissau, a publicação da antologia Mantenhas para quem luta! (1977), pelo Conselho Nacional de Cultura.
  • em Timor, a publicação do livro "Caiúru" de Grácio Ribeiro

Em Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e São Tomé e Príncipe, o escritor africano vivia, até a data da independência, no meio de duas realidades às quais não podia ficar alheio, a sociedade colonial e a sociedade africana. A escrita literária expressava atensão existente entre esses dois mundos e revelava que o escritor, pelo fato de sempre utilizar uma língua européia, era um “homem-de-dois-mundos”, e a sua escrita, de forma mais intensa ou não, registrava a tensão nascida da utilização da língua portuguesa em realidades bastante complexas. Ao produzir literatura, os escritores forçosamente transitavam pelos dois espaços, pois assumiam as heranças oriundas de movimentos e correntes literárias da Europa e das Américas e as manifestações advindas do contato com as línguas locais. Esse embate que se realizou no campo da linguagem literária foi o impulso gerador de projetos literários característicos dos países que assumiram o português como língua oficial. Tal realidade entra ainda em conflito com a época em que estes territórios lutavam para conquistar sua independência, onde a dualidade colonialismo/nativismo ficou mais evidente ainda, momento em que países como Guiné-Bissau passam a produzir literatura em línguas locais com maior profusão, num resgate pela sua cultura.

Bibliografia:
FONSECA, Maria Nazareth Soares; MOREIRA, Terezinha Taborda. PANORAMA DAS LITERATURAS AFRICANAS DE LÍNGUA PORTUGUESA. Disponível em <http://www.ich.pucminas.br/posletras/Nazareth_panorama.pdf>. Acesso em: 18 dez. 2011.