Poema em linha reta (Fernando Pessoa)

Poema em Linha Reta é uma obra de Fernando Pessoa sob o heterônimo de Álvaro de Campos. Os versos fazem uma crítica à hipocrisia. De forma irônica, o poeta demonstra uma percepção aguçada das mazelas de sua época, escondidas por trás das representações das pessoas na sociedade, que escondem suas falhas e apenas expõe seus êxitos.

Após se apresentar, demonstrando todos os seus defeitos (porco, vil, parasita, sujo, ridículo, absurdo, mesquinho submisso, arrogante, entre outros), o eu-lírico, nas três últimas estrofes, interroga o leitor na busca de respostas. “Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?”. Desta forma, o poeta coloca-se à margem do mundo, demonstrando sua insatisfação com as máscaras, com as atuações sociais.

No oitavo verso, Álvaro de Campos apresenta a afirmação: “tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas”. Neste trecho, levando-se em consideração o contexto de toda a poesia, o eu-lírico não se coloca contra as convenções sociais, mas a favor de uma transparência maior nas relações humanas, indicando que todos cometem gafes, mas nem todos tem a coragem de assumi-las.

No poema, observa-se que o autor encara a vida como uma estrada torta, com altos e baixos, construída por pessoas em diversos momentos: de produção e parasitismo, de limpeza e imundície, de paciência e impaciência. Dessa forma, percebe-se uma interpretação da alma humana como suscetível ao prazer do pecado, à acomodação da derrota. Fernando Pessoa encara todos da mesma forma, com tendências ao desamor, à traição e ao ridículo, mas separa-se do grupo que discursa ao contrário da própria natureza, rotulando-o como de semideuses, não-humanos.

"Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?"

O antagonismo citado por Fernando Pessoa é uma das interpretações para o título Poema em Linha Reta. Já que existem diversos lados, se a vida fosse traçada graficamente, seria qualquer coisa menos uma linha reta, mas, sim, uma trilha cheia de desvios e lugares obscuros. Porém, em sua busca incessante, o poeta não acha ninguém como ele, “eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo”.

Na terceira estrofe, observa-se um Álvaro de Campos estafado com a hipocrisia. Ciente de que nada irá mudar, o poeta pede, ao menos, que sejam assumidas algumas infâmias ou covardias, pois sabe que ninguém nunca revelará os pecados ou atos de violência. “Quem me dera ouvir de alguém a voz humana / Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia" / "Que confessasse não uma violência, mas uma covardia”.

Fontes:
http://www.releituras.com/fpessoa_linhareta.asp
http://www.algosobre.com.br/cultura/sobre-a-poesia-e-os-poetas.html
http://hipocraticos.wordpress.com/2007/11/16/poema-em-linha-reta/
http://www.passeiweb.com/na_ponta_lingua/livros/analises_completas/p/poema_em_linha_reta_poema

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