Poética de Manuel Bandeira

Manuel Bandeira irá retratar Recife muito bem, pois foi lá onde o poeta passou sua infância e ela o inspira assim, como São Paulo inspira o poeta Mario de Andrade. Bandeira tem mais apreço pela lembrança do Recife de sua meninice, onde os nomes da rua tinham uma relação com os moradores da cidade. A Recife retratada não é como a cidade que surgiu depois da chegada dos transatlânticos, onde as ruas tem nomes de pessoas da alta sociedade.

O poema “Mangue” de Manuel Bandeira é dividido em três estrofes, na primeira e segunda estrofe estão a pobreza e a simplicidade do passado do povo de Recife, que fizeram parte da infância do poeta. O mangue, representando a cidade de Recife no poema, é tão pobre que nele nem as palmeiras conseguem sobreviver. O povo é tão simples que, Bandeira, ao tentar reproduzir a fala coloquial, acaba se atrapalhando. Mas é nesse ambiente miserável e simplório, do qual o poeta fez parte e se mostra empático, que vai nascer um dos principais estilos da música brasileira: o choro, que ficou famoso nos carnavais do Rio de Janeiro.

A adversativa “mas” no primeiro verso da terceira estrofe sugere a passagem brusca do passado simples para o presente malicioso. Agora há transatlânticos nas docas do canal com prostitutas atraindo o turismo sexual para a região, os coronéis aparecem para dominar o mangue, a degradação que antes era apenas devido a pobreza, agora ocorro por causa da corrupção e da prostituição. Ao terminar com cidade nova, Bandeira irá ironizar essa mudança decadente ocorrida no mangue. O tema da prostituição no mangue é visto tanto em Manuel Bandeira como em Mario de Andrade.

A critica ao estilo de vida burguês também está presente em Manuel Bandeira.Em “Pensão familiar” ele mostra o cotidiano vazio e aborrecedor da “pensãozinha burguesa”, onde o fato mais interessante que pode acontecer é um gato fazer xixi. O gato vira-lata esnobe com “gestos de garçom de restaurant-Palace” parece figurar a imagem do burguês de “Ode ao Burguês” (Mário de Andrade): o burguês que quer fazer parte da aristocracia, porém, não possui a mesma quantidade de dinheiro nem a mesma”classe” para ser aceito neste meio.

 

"Jardim da pensãozinha burguesa.

Gatos espapaçados ao sol.

A tiririca sitia os canteiros chatos.

O sol acaba de crestar as boninas que murcharam.

Os girassóis

amarelo!

resistem.

E as dálias, rechonchudas, plebéias, dominicais.

 

Um gatinho faz pipi.

Com gestos de garçom de restaurant-Palace

Encobre cuidadosamente a mijadinha.

Sai vibrando com elegância a patinha direita:

- É a única criatura fina na pensãozinha burguesa."

(Pensão Familiar, Manuel Bandeira)

Fontes:
BANDEIRA, Manuel. Itinerário de Pasárgada. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984.
http://www.revistabula.com/564-os-10-melhores-poemas-de-manuel-bandeira/
http://www.passeiweb.com/na_ponta_lingua/livros/resumos_comentarios/a/antologia_poetica_manuel_bandeira
http://www.sagradomarilia.com.br/arqdownloads/manuelbandeira.pdf

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