A Hora da Estrela

Por Ana Lucia Santana
Tudo começa com uma máscara. Clarice teme se revelar inteira nesta obra? Seja como for, ela se oculta sob um narrador. A história de uma das personagens mais complexas e ricas desta autora é narrada por um ‘homem’, o escritor Rodrigo. Mas, ironicamente, nunca a alma feminina foi tão revelada quanto nesta suposta maestria masculina. Porém, o leitor não se deve deixar enganar. A personagem principal não é exatamente a nordestina Macabéa, mas sim a própria literatura, o ato de narrar, o nascimento de uma obra, tecida com palavras extraídas, muitas vezes, de pedras, ou melhor dizendo, de fatos tão duros quanto elas.

O narrador cria sua personagem favorita como uma metáfora da simplicidade aparente, que neste momento ele busca em sua escrita, tentando fugir dos preciosismos e de uma erudição artificial e estéril. Enquanto a nordestina quase nada questiona, parece aceitar resignadamente seu destino, sem nem pensar sobre a vida, menos ainda em seu sentido, Rodrigo busca a si mesmo, sem cessar, através da literatura. Em muitos momentos ele afirma escrever para não morrer, à procura de uma resposta.

Esta metanarrativa prossegue até a exaustão, e retorna aqui e ali ao longo da história, interrompendo e às vezes até mesmo suspendendo o fluxo narrativo. Em “A Hora da Estrela”, o monólogo interior clariceano transporta-se para a alma do narrador, que aqui não coincide explicitamente com a protagonista, e muitas vezes se transforma em diálogo claro com quem o lê. Cada aspecto da história é discutido com os futuros leitores da obra, desde sua verossimilhança até o tempo-espaço em que a narrativa se ambientará.

A identidade entre o narrador e Macabéa se resume apenas ao seu passado de nordestino, que, aliás, coincide com o da escritora, criada em Maceió e Recife? Ou há mais entre eles do que ousamos presumir? Não são poucos os momentos em que ele se declara apaixonado por Macabéa, e se torna seu mais ardente defensor. Rodrigo adivinha na personagem, sob o corpo frágil e murcho, à primeira vista sem sumo e sem essência, tamanha vitalidade e sensualidade, tão difíceis de imaginar, que o leitor logo desconfia de uma conexão maior entre ambos. A própria admiração dela pela atriz Marilyn Monroe, ícone maior da volúpia, traduz os anseios e desejos que palpitam em sua alma desprovida de maiores ambições.

Há na protagonista, segundo seu criador, um excesso de existir, que se farta nas coisas mais simples, nos pequenos e ocultos detalhes, que, como ela mesma, passam sempre despercebidos. A alagoana, embora acreditasse ser feliz, por mais miserável que fosse sua vida, sentia às vezes se doer, uma dor aguda em seu íntimo, que ela acreditava sanar apenas engolindo pílulas sem água. Esta criatura quase despersonalizada, em muitos momentos surpreendia a si mesma, ora desejando transpor as barreiras do conhecimento, tentando desvendar o significado de palavras para ela enigmáticas, captadas no programa ‘Você Sabia?’, da Rádio Relógio; ora se permitindo um instante de êxtase, ao tentar abraçar uma árvore que ela jamais poderia enlaçar completamente.

Macabéa, órfã de pai e mãe, sem lembrança alguma de seu nascimento ou do que seja uma família, criada por uma tia devota que sentia prazer ao lhe provocar dor e sofrimento, comportava-se muitas vezes como um animalzinho instintivo e manso, inocente ao extremo, a ponto de parecer nada sentir, tornando-se assim carente de expressão facial, o que causa estranheza nos raros que percebem sua existência, como a colega de trabalho Glória, que em dado momento lhe pergunta se ela “não tem cara”. Ou Olímpico, seu namorado, também nordestino, porém de outra estirpe, dos fortes nascidos no sertão, que se refere a ela como “um cabelo na sopa”, o qual “não dá vontade de comer”.

Olímpico é o contraponto de Macabéa, produto também das áridas paisagens do Nordeste, um paraibano ambíguo, por um lado agindo como um valentão, que mata e fere primeiro, para poder sobreviver e escapar às armadilhas do sofrimento; por outro lado, um solitário carente de afeto, obcecado por funerais, nos quais pode se permitir extravasar as emoções reprimidas, sem se envergonhar. Ele não mede esforços para conquistar o que deseja, principalmente sua meta maior, tornar-se deputado, depois de dar vazão a sua natureza selvagem, trabalhando como açougueiro. Ambicioso e cruel, ele se opõe ao conformismo e à submissão absolutas de Macabéa.

Suas poucas alegrias eram a música, as imagens de Marilyn Monroe e de Greta Garbo - que resumiam seu sonho singelo de ser estrela de cinema -, os momentos com Olímpico e raros instantes de vaidade. Ela não se permitia o luxo de ser triste, mas ao mesmo tempo não se acostumava a ser alguém, a ser gente. Trazia em si a impossibilidade de compreender a si mesma e ao mundo. Clarice, aliás, é uma escritora sempre preocupada com a relação entre o eu e o mundo, questão debatida em profundidade pela Fenomenologia, escola filosófica que propõe a supressão da separação entre sujeito e objeto.

Datilógrafa, virgem, consumidora voraz de coca-cola e cachorro quente, Macabéa representa constantemente o papel de ser ela mesma, pois não consegue transcender o gesto mecânico de repetir monotonamente os automatismos cotidianos que sintetizam sua existência. O narrador a descreve como um ‘acaso’, e confessa só se libertar deste abismo pelo ato da escrita, que surge ao longo da narrativa como uma atitude redentora, através da qual ele vive, morre e renasce, como uma eterna fênix. A morte, para ele, é um estágio necessário, mas não necessariamente ligado ao misterioso Deus que não compreende, assim como sua personagem preferida, que ora automaticamente, mas desconhece a divindade.

Em nome de todas as Macabéas, o narrador, alter-ego de Clarice, procura a verdade, as respostas, o sentido de ser, a vida na morte e a morte na existência, o grande encontro consigo, que a protagonista só atinge quando não há mais retorno. A estrela emerge quando finalmente compreende aquilo que não pôde alcançar ao longo de sua trajetória existencial. Só então ela se torna brilho e fulgura como sempre desejou. Então Clarice, através do narrador, se funde a sua protagonista, mas ainda assim não se completa, e retorna avidamente ao quase de cada ser vivente. Neste momento, “viver é luxo”. Morrer é uma lembrança. E uma reflexão de Clarice, ciente de sua doença terminal, consciente do seu destino irreversível.

Clarice Lispector brilha como nunca em “A Hora da Estrela”, junto com uma de suas protagonistas mais encantadoras e tristes. Nascida em uma pequena cidade da Ucrânia, Tchetchelnik, alcançou as margens brasileiras com apenas dois meses de idade. Mais tarde a futura escritora naturalizou-se brasileira, depois de viver sua infância no Nordeste, primeiro em Maceió, depois em Recife. A adolescência ela passou já no Rio de Janeiro, cidade na qual se graduou em Direito, consolidou sua trajetória jornalística e deu impulso à sua carreira na literatura. A hora da Estrela é sua única novela, editada em 1977. Posteriormente, em 1985, ela é adaptada para o cinema pela diretora Suzana Amaral, com grande sucesso. A escritora morre no dia nove de dezembro de 1977, na cidade do Rio de Janeiro.

A Editora Rocco acaba de lançar uma edição comemorativa dos trinta anos de lançamento desta obra, uma versão especial acompanhada por dois CDs – áudio-livro - com o texto integral narrado por Pedro Paulo Rangel – gravado, editado e finalizado por Geraldo Brandão -, e a dedicatória interpretada por Maria Bethânia, com a gravação de Geraldo Pinheiro.

Fontes
A Hora da Estrela – Clarice Lispector – Editora Rocco – Rio de Janeiro – 108 pp.