A Menina que não sabia ler

Por Ana Lucia Santana
Neste suspense gótico o autor tenta seguir os passos de seus mestres literários, Edgar Allan Poe e Henry James. O livro começa bem morno e vai ganhando velocidade gradualmente. Ao atingir o ponto de ebulição, porém, ele compele o leitor a seguir praticamente sem fôlego até a última página.

Embora a trama, que se passa em 1891, seja bem estruturada, criativa e, até certo ponto, inteligente, a história navega por uma temática mórbida, protagonizada por Florence, uma garota de doze anos, que, ao lado de seu irmão caçula Giles, reside em uma mansão sombria e repleta de mistérios.

Órfã de pai e mãe, ela dedica seu tempo e sua afetividade exclusivamente ao meio-irmão e aos livros. Criada por uma antiga governanta, a Senhora Grouse, e por alguns criados da moradia decadente, ela é desprezada pelo tio, a quem nunca conheceu pessoalmente. Ele se encarrega apenas de transmitir algumas regras para os serviçais e de contratar uma das preceptoras de Giles.

Desprovida de quaisquer valores morais, perspectivas para o futuro e instrumentos para o convívio social, Florence se refugia no tesouro literário que habita a Biblioteca, recanto que ela descobre um dia, casualmente. Apaixonada por esse universo desde o início, impedida de sequer aprender a ler – regra máxima prescrita pelo tio -, ela se transforma em autodidata e conquista, sozinha, esse conhecimento, o qual lhe abre as portas do mundo e da imaginação.

A partir deste momento, a garota passa a viver uma vida dupla. Diante do olhar alheio, Florence é uma menina estranha que perambula pela mansão da Nova Inglaterra, mas clandestinamente mergulha cada vez mais fundo neste refúgio secreto, apenas compartilhado com Giles. O problema é que, para defender os únicos tesouros que a vida lhe ofereceu – a esfera literária e o irmão -, ela é capaz de qualquer coisa.

A narrativa é conduzida pela própria Florence; assim, o leitor só tem uma versão da história, e é cada vez mais enredado pela protagonista. Resta saber: o que é realmente realidade e o que é mera imaginação? A jovem desconhece seu passado e sente que em Blithe, a mansão sombria, há muitas questões suspensas no ar, há vários fantasmas que pairam na atmosfera sufocante da ancestral residência.

O enredo vai se tornando mais sufocante à medida que entra em cena uma enigmática mulher, Senhorita Taylor, que substitui a antiga preceptora, morta tragicamente. Desde o primeiro instante, Florence vê nesta personagem a imagem de todos os seus medos e terrores. A garota sente o irmão cada vez mais distante e enredado pela estranha; ela mesma vai revelando facetas ocultas de sua personalidade ao se confrontar com esta criatura.

Em dado momento, o leitor passa a sentir um certo estranhamento e, subitamente, a narrativa é subvertida e se transforma em um mosaico macabro, explorado pelo autor com detalhes mórbidos e desnecessários, que podem provocar angústia e aflição, sensações completamente dispensáveis, em quem percorre as páginas deste livro.

Se a intenção do escritor é provocar o leitor, retirá-lo compulsoriamente de seu escudo de indiferença, que o imobiliza diante da dor alheia, ainda há algum mérito em suas intenções, assim como o possível intento de revelar cruamente o quanto pode ser cruel o universo imaginário de uma criança legada ao completo abandono. Mesmo assim, insisto em que algumas passagens são povoadas por terríveis pormenores, que apenas contribuem para tornar a travessia desta narrativa mais árdua.

John Harding é conhecido apenas por uma produção literária, We Did On Our Holliday, no qual se baseia uma série televisiva. Ele escreve críticas literárias para o Daily Mail e reside em Londres.