A Morte e a Morte de Quincas Berro d'Água

Por Ana Lucia Santana
Jorge Amado sublima sua temática preferida, a visão romântica das camadas populares baianas, na deliciosa obra-prima cômica A Morte e a Morte de Quincas Berro d’Água, lançada em 1961. Esta publicação concisa apresenta doze capítulos conduzidos na terceira pessoa por um narrador onisciente.

Os personagens que desfilam nesta que é uma das mais significativas criações literárias brasileiras são ricos e deslumbrantes. Na época de seu lançamento o livro foi recepcionado com entusiasmo tanto pelos críticos quanto pelos leitores. Ele foi apreciado não só pelos fãs habituais de Jorge Amado, mas particularmente pelo público mais culto, que nele percebeu o empenho do autor em depurar no grau máximo seu tema dileto.

Nesta novela o escritor leva ao auge sua idealização da massa popular, a ponto de converter seu modo de vida em saborosa utopia. É de uma forma poética que ele retrata a classe social que mais inquieta sua prática literária e política, valendo-se para isso da trajetória do tranquilo funcionário público Joaquim Soares da Cunha, marido e pai respeitado e amado.

Tudo se passa depois da morte de Quincas, quando seu corpo é descoberto por uma amiga em um cômodo imundo, trajando farrapos e uma meia rasgada que revela o dedão do pé. Algum tempo antes, porém, ele já havia, de certa forma, morrido moralmente para seus familiares.

Sua primeira morte, portanto, se dá quando ele decide deixar de ser um cidadão venerável para se transformar em Quincas Berro d’Água, boêmio errante que abandona seu posto de esposo e pai e se lança de corpo e alma na vadiagem, particularmente no álcool, daí o novo nome pelo qual passa a ser conhecido.

Com sua segunda morte, a família pode finalmente viver seu luto, embora apenas na aparência, pois, no fundo, estão aliviados com os novos acontecimentos. Agora a filha Vanda, o genro Leonardo, Tia Marocas e seu irmão caçula, Eduardo, não precisam mais carregar, diante da sociedade, o fardo da desonra.

Como uma prestação de contas diante do grupo social, eles resolvem enterrar o que já passou e providenciam uma máscara de dignidade para Joaquim, oferecendo-lhe um velório e um enterro dispendiosos. Mas seus companheiros de farra, ao perceberem no rosto do morto um sorriso cínico e debochado, quase como um sinal da futura revanche, crêem que Quincas está vivo e sequestram o defunto para uma noitada inesquecível.

Daí em diante a confusão está instaurada, pois ninguém mais sabe quando, afinal, o morto morreu, já que, mais tarde, o barco em que os amigos se encontram com Quincas é assaltado por ondas furiosas, e é neste instante que eles decretam a verdadeira passagem do companheiro para o reino da morte.

Mais do que polêmicas sobre o momento da morte, há a preocupação da família com as aparências sociais, a qual é radicalmente contraposta por Jorge á total displicência dos representantes do povo baiano, os companheiros de bebedeira do protagonista. Esta obra foi recentemente reeditada pela Cia. Das Letras, edição primorosa seguida por um posfácio elaborado por Affonso Romano de Sant'Anna, cronologia, cópia das primeiras páginas do original do autor, fotos, imagens e capas do livro nas suas mais variadas traduções ao redor do mundo.

Fontes:
http://pt.wikipedia.org/wiki/A_Morte_e_a_Morte_de_Quincas_Berro_d'Água
http://www.firb.br/resumo.htm
http://www.gargantadaserpente.com/resenhas/87.shtml