A Relíquia

Por Ana Lucia Santana
Esta obra de Eça de Queirós, lançada em 1887, pertence à segunda etapa de sua produção literária. Ele retrata neste romance, seu ponto de vista pessimista com relação ao conservadorismo que predomina então em Portugal, representado neste livro pela personagem Dona Maria do Patrocínio, conhecida como Titi.

Extremamente devota e compassiva, pelo menos na aparência, ponto capital das críticas contundentes de Eça, ela não aceita o estilo de vida de seu sobrinho e, ao invés de ajudá-lo quando fica enfermo, como prescreveria a verdadeira religião, ela prefere deixá-lo a mingua.

Através desta personagem, o escritor procura atingir o universo clerical abordando, por meio das várias figuras que desfilam em A Relíquia, as inúmeras fraquezas de padres como o hipocondríaco Pinheiro e Casimiro, o procurador e conselheiro de Titi. Assim, Eça de Queirós atinge o cerne do corpo social português, com sua censura feroz e severa, ao revelar do que são capazes as pessoas, incluindo os membros do clero, para obter vantagens financeiras.

O protagonista desta história é Teodorico Raposo, que narra suas memórias por acreditar que elas contêm uma moral intensa, e assim devem ser preservadas pela aura imortal da literatura. O narrador, em terceira pessoa, é moldado nos padrões da onisciência, portanto ele sabe tudo que se passa no íntimo de cada personagem e no enredo como um todo.

Assim, Teodorico, conhecido como Raposão, acredita que merece a herança da tia, Titi, por isso finge ser o que não é, falso e cheio de segundas intenções, um casanova. Para agradar a beata, porém, finge também ser devoto e sai em peregrinação pela Terra Santa, passando pelo Egito e pela Palestina. Ele segue narrando suas aventuras e desventuras, as histórias que supostamente teriam modificado sua existência.

No fundo, porém, ele carece de estofo moral, e não se importa em ludibriar os outros ao negociar falsas relíquias. E mente até mesmo ao justificar sua narrativa, pois o que ele pretende realmente é agradar a burguesia, sem a qual ele acredita não poder prosperar. Para atingir este objetivo, ele deve corrigir um erro cometido na obra escrita por seu parceiro de viagem, Topsius, sobre esta mesma jornada.

Nela ele relata que o Raposão estaria transportando dois pacotes de papel com restos de seus ascendentes. Teodorico crê que este detalhe poderia incomodar a classe burguesa local, então compõe sua própria versão dos fatos. A história, que se passa em fins do século XIX, apresenta como cenários a cidade de Lisboa e a Terra Santa.

Por estes caminhos tortuosos Eça conquista sua principal meta, tecer uma crítica aguda sobre este universo das aparências e hipocrisias. A mesma teia de falsidades e ilusões que permeia a trama também se estende como um véu sombrio por toda a sociedade de Lisboa, guiando seus integrantes, de acordo com o ponto de vista deste autor, à inevitável decadência.

Fontes:
http://www.passeiweb.com/na_ponta_lingua/livros/analises_completas/a/a_reliquia
http://www.jayrus.art.br/Apostilas/LiteraturaPortuguesa/Realismo/Eca_de_Queiros_A_Reliquia.htm