Agora é Prá Valer!

Por Ana Lucia Santana
Poucos livros me surpreenderam e me emocionaram tanto. Não concordo que as lições aqui contidas se dirijam tão somente aos executivos, à esfera empresarial. Acredito que todos se identificam com os princípios expostos nesta obra, pois de uma forma ou de outra, em nossas vidas, assumimos várias vezes o papel de líder.

Aliás, mesmo quando não temos a oportunidade de vivenciar a liderança, alguns conceitos ainda assim se aplicam a nossa existência. É fundamental refletir sobre os princípios que a coach, Beatriz Sampaio, transmite ao protagonista, o gerente Lúcio Queiroz.

Logo na Introdução a autora esclarece que se inspirou em vários gerentes que passaram por seu consultório na criação de seu personagem. Assim, fica claro que seu perfil psicológico não é mera ficção, e sim fruto de uma realidade ainda persistente em nossos dias. É curioso perceber que não é uma questão de faixa etária, pois Márcia enfatiza que muitos deles são mais novos que seu explosivo empresário.

Lúcio é diretor comercial do Grupo Brandão. Ele é casado há mais de vinte e quatro anos com Vera, mas seu empenho obsessivo na esfera profissional provocou o fim de seu matrimônio. Não suportando mais a desatenção e a indiferença, a esposa pede a separação e se afasta definitivamente do marido, embora seu coração ainda insista em ser fiel a ele.

O executivo segue em sua jornada autodestrutiva. Educado em um contexto repressor, guiado pela diretriz de que ‘manda quem pode e obedece quem tem juízo’, ele alimenta uma mentalidade conservadora e um gênio terrível. Discípulo dos preceitos exercitados por antigos gestores, ele acredita realmente que está agindo corretamente ao intimidar, desrespeitar, julgar, acusar e demitir seus funcionários, sem ao menos ouvi-los ou dar-lhes uma segunda oportunidade.

Ele passa como um trator sobre todos, sem sequer se importar com as conseqüências. Tudo que deseja é superar metas a cada ano e preparar a seara para que seu filho, Alexandre, assuma posteriormente a presidência da empresa. Lúcio não percebe, porém, a dimensão do abismo que se estabelece entre ele e seu herdeiro.

Alexandre representa novos valores, mudanças de paradigmas irrefutáveis, um modelo de gestão mais humano, que dá ênfase ao diálogo, ao respeito, à compreensão do outro. Aos poucos esse choque de ideais e de visão de mundo gera uma distância inevitável entre pai e filho. A ruptura total se concretiza em um episódio envolvendo Suzana, uma das vendedoras do Call Center.

Lúcio se irrita com ela quando a jovem transmite uma informação incorretamente; sem nem mesmo se importar com sua gravidez avançada, ele a agride verbalmente e chega ao auge da cólera quando a gerente da equipe intervém; irado, bate a porta com tanta intensidade que ela se despedaça em milhares de fragmentos. Suzana imediatamente procura Alexandre, receptivo e atento com os subordinados.

Alexandre fica chocado com a atitude paterna; os dois travam uma discussão acalorada e o jovem pede demissão. Além disso, avisa ao pai que irá trabalhar com seu maior adversário, Jairo Martins, outro representante da gestão moderna. Tudo se agrava quando o jovem deixa o apartamento que divide com Lúcio.

O coração do protagonista não resiste e ele quase morre. A partir deste momento ele passa a refletir sobre sua vida, especialmente porque não recebe uma única visita no hospital. É neste contexto que conhece Beatriz Sampaio, voluntária no Cardio Help. A princípio ele não aceita ajuda, mas logo desmorona diante da doçura e da competência da coach.

Gradualmente Lúcio percebe que não pode mais continuar agindo da mesma forma. Disposto a mudar, ele se alia a Beatriz e com sua assessoria vai tecendo sua mudança interior e uma nova concepção de gestão. O primeiro passo é conhecer a si mesmo; o segundo é perceber como é visto pelos demais; o terceiro é se aceitar totalmente; o quarto é despertar no íntimo o seu melhor. Aqui permito ao leitor que caminhe até a conclusão da narrativa e descubra por si mesmo a quinta lição, a mais significativa, essencial para todos.

Uma etapa de cada vez, Lúcio vai superando obstáculos e dificuldades e vencendo seu pior adversário, ele mesmo. Aprende a buscar a opinião dos outros sobre suas atitudes, e a dar o feedback positivo a seus subordinados. Encontra em sua essência forças para se controlar, humildade e o poder de amar e perdoar.

Quem de nós nunca sentiu a necessidade de se modificar, de consertar erros cometidos, de reconhecer suas fraquezas, de estabelecer intimidade com as pessoas a nossa volta, de perdoar e ser perdoado? Este livro permite ao leitor se tornar um ser humano melhor se estiver disposto a percorrer o mesmo caminho seguido por Lúcio Queiroz.

Márcia presenteia o leitor não somente com um livro, mas antes de tudo com um roteiro que nos permite conquistar uma segunda oportunidade. Marcas e cicatrizes permanecem, mas mesmo elas nos preparam para o necessário amadurecimento emocional e espiritual, e assim um novo eu pode emergir e alçar vôos mais ousados.

A trama, bem estruturada e inteligente, diverte e ao mesmo tempo emociona o leitor. A leitura é leve, fluida e saborosa. E proporciona momentos de indispensável reflexão. A capa é criativa, lembra na verdade uma história apocalíptica, atmosfera que traduz perfeitamente a sensação de aniquilação de um velho ser e seu renascimento.

Márcia Luz é psicóloga, pós-graduada em Administração de Recursos Humanos, especialista em Gestalt-terapia e mestre em Engenharia de Produção. É também coach executiva e pessoal. Ela é sócia-presidente da Plenitude Soluções Empresariais Ltda. A autora publicou igualmente outros livros: Lições que a Vida Ensina e a Arte Encena;  Outras Lições que a Vida Ensina e a Arte Encena; e Construindo um Futuro de Sucesso.

 Fonte:
Márcia Luz. Agora é Pra Valer! A Verdadeira História de quem Passou de Chefe dos Outros a Líder de Si Mesmo. Editora DVS, São Paulo, 2012, 176 pp.