As Três Marias

Por Ana Lucia Santana
A obra "As Três Marias", lançada em 1939, é narrada na primeira pessoa por Maria Augusta ou Guta, a partir do momento em que ela ingressa em um internato localizado na capital cearense, Fortaleza, quando tinha apenas 12 anos. Apesar dela ser a condutora da história, a trama é tecida pelo ponto de vista das três Marias – Guta, Maria da Glória e Maria José, todas alunas deste estabelecimento.

Rachel de Queiroz traça um painel, neste livro, da condição feminina, de sua limitada margem de escolha, dos sonhos que se chocam com a dura e implacável realidade. As personagens se vêem, assim, diante da opressão sexual, de um lado, e da total carência de esperanças de outro. Todas alimentam ideais e fantasias envolvendo grandes amores e uma vida repleta de peripécias.

Apesar de alimentarem as mais diversas aspirações, ao se depararem com o universo exterior elas só encontram o tradicional caminho do matrimônio ou, como alternativas, a opção pela existência monacal e a vida libertina das prostitutas. Neste sentido, Rachel apresenta uma visão amarga do destino da mulher, principalmente quando sua natureza e seus dilemas interiores entram em choque.

A autora traça o retrato, nesta obra, do papel reservado para as mulheres em uma realidade patriarcalista, discriminatória e austera. Ela realiza um estudo profundo da visão de cada protagonista, destas almas repletas de sonhos que, pouco a pouco, vão sendo esvaziadas por um mundo inclemente e desprovido de paixão.

Na busca frenética da identidade, Glória escolhe se submeter às convenções sociais e opta por ser esposa e mãe; Maria José se distancia da paixão, que nunca vivenciou a não ser em suas divagações, e se refugia na vida religiosa, mergulhando nos dogmas e nas tradições da religião institucional, acreditando que tudo é pecado; Guta, que não se encaixa nem no casamento nem na vocação para o monastério, é a única que ainda corre desesperadamente atrás da tão desejada liberdade.

Mas Guta também se depara com a frustração, pois não aceita a falta de compromisso dos parceiros com quem se relacionou, já que, na verdade, ela ainda sonha com as histórias de amor protagonizadas nas páginas dos livros que sempre alimentaram seus desejos. Como a realidade é completamente diferente, ela logo passa a ter a solidão como companheira.

As antigas amigas, outrora inseparáveis, nutrindo sempre os mesmos ideais e quimeras, escolhem caminhos distintos, mas, sob a pena de Rachel, todos parecem conduzir ao mesmo desencanto, à total falta de perspectivas. Mas a sólida amizade entre as três Marias continua, é o único laço com o passado que permanece.

Rachel de Queiroz nasceu em Fortaleza, em 1910, e morreu adormecida em sua rede, no Rio de Janeiro, no ano de 2003. Ela se muda para terras cariocas com a família ao fugir da seca, tema principal de sua obra mais conhecida, O Quinze. Depois de um período na militância comunista, ela deixa o partido, decepcionada com seu caráter totalitário, o qual se revela quando seu comitê decide censurar um livro da autora. Em 1996 ela conquista o Prêmio Moinho Santista por toda sua obra.

Fontes:
http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=603208
http://pt.wikipedia.org/wiki/As_Três_Marias_(romance)
http://www.releituras.com/racheldequeiroz_bio.asp