Budapeste (livro)

Por Ana Lucia Santana
Budapeste é a quarta produção literária do compositor, cantor e escritor Chico Buarque de Holanda. Ele compôs esta obra na sua residência, no Rio de Janeiro, e também em seu apartamento, localizado na capital francesa. A duplicidade, tão presente neste livro, já se encontra presente, portanto, no seu próprio processo criativo.

Comparado às obras anteriores, este romance escapa da densidade sufocante de seus antecessores, apresentando um discurso mais saboroso e envolvente. Cabe ao leitor que viaja por suas páginas descobrir o que é real e o que se abriga no universo da fantasia. Seu protagonista é José Costa, um ghost-writer, ou seja, um autor que cria seus enredos, discursos e artigos anonimamente, ao mesmo tempo em que testemunha outros levarem a fama por aquilo que ele criou.

Morador do Rio de Janeiro, ele é casado com Vanda, que tem um filho seu, Joaquinzinho, em um momento de baixa auto-estima vivenciado por José. Ele é sócio do amigo Álvaro Cunha em uma agência que produz textos anônimos para outros. Ao retornar de um Congresso de ghost-writers como ele, acidentalmente vai parar em Budapeste, na Hungria. Aí ele se apaixona pelo idioma magiar e assume uma nova identidade, bem como outro caso amoroso, com Krista, que o ajuda a dominar esta língua sedutora.

Budapeste é povoado pelas conversas entre o outro de José, Zsoze, que nasce quando não conseguem escrever seu nome corretamente, e a amante Krista. Enquanto o brasileiro só cria em prosa, sua nova identidade produz um poema intitulado Titkos Háramsoros Versszakok ou Tercetos secretos, assinado por um certo Kocsis Ferenc, poeta decadente.

José passa a viver alternadamente estes dois personagens, alimentando uma duplicidade que remete a um estilo muito comum na produção literária européia dos séculos XIX e XX. Enquanto os poemas produzidos em Budapeste não fazem muito sucesso com Krista, o que leva Zsoze a romper com ela, Vanda se deixa seduzir pela produção anônima de José sobre o alemão Kaspar Krabbe, que no Brasil praticava a nova língua no corpo de uma mulher chamada Tereza e, posteriormente, nas prostitutas e jovens acadêmicas que disputavam entre si a honra de serem palco desta prática.

Capa do livro Budapeste, de Chico Buarque de Holanda

Esta literatura especular lembra outros amantes da duplicidade, como o argentino Jorge Luis Borges. Alguns críticos consideram o romance um tanto carente de estabilidade, preso a uma excessiva metalinguagem e a um tom que beira um pouco os estereótipos. Chico Buarque parece dividir com seu personagem o amor pela literatura, e ao mesmo tempo a dor de parir uma obra literária. Mas sua compulsão pelas palavras acaba gerando essa tendência à imagem caricatural e ao abuso das situações criadas pelo autor.

Por outro lado, ele também se vale da metalinguagem para constantemente se reportar a si mesmo e a seus personagens como duplos – um escritor no interior de outro escritor, uma história dentro da história. É neste ponto que muitos conseguem perceber o autor como um mestre no equilíbrio entre os diversos movimentos gerados na estrutura do enredo.

O desfecho deste livro redime todos os possíveis erros cometidos pelo autor, justificando muitas de suas opções ao longo da história. O leitor se sente tentado a reiniciar sua leitura com um outro olhar, captando nuances antes não percebidas.

Fontes
http://www.vacatussa.com/2008/10/budapeste-chico-buarque/
http://www.netsaber.com.br/resumos/ver_resumo_c_1137.html