Dois Irmãos

Por Ana Lucia Santana
O livro Dois Irmãos, lançado em 2000, é marcado pela questão da identidade, que perpassa toda a cultura pós-moderna, especialmente a literatura, pois representa a busca do próprio ser humano, que se sente, hoje, como um nômade, um incessante exilado, onde quer que esteja. Este traço é ainda mais acentuado nesta obra, povoada por personagens que deixaram sua pátria para tentar no Brasil uma vida nova, e por seus descendentes, que ainda não se sentem à vontade no lugar que ocupam.

O fio que guia a construção desta identidade é a memória, praticamente a protagonista da produção literária de Milton Hatoum, pois é ela, bem como sua eventual ausência, que orientam esta narrativa. Dois Irmãos é a obra mais explorada e analisada deste autor, que aqui desenvolve os temas já presentes em Relato de um Certo Oriente, embora de uma forma menos rebuscada e mais singela, o que propicia ao leitor uma compreensão maior de sua temática.

O relato é conduzido por Nael, filho da serviçal de uma abastada família libanesa integrada pelos irmãos gêmeos Yaqub e Omar, de naturezas distintas, unidos por um ódio avassalador. A princípio, a história parece estar centrada na relação entre ambos, mas logo se percebe que ela é apenas um pretexto para que o narrador encontre a si mesmo, a partir da descoberta de sua real paternidade.

Sua mãe, Domingas, nutrira no passado uma intensa paixão por Yaqub, filho honesto e dedicado ao trabalho, mas fora estuprada violentamente por Omar, figura agressiva e contraditória, desprovida de qualquer traço de responsabilidade. Assim, torna-se um enigma para Nael saber quem é seu pai, se ele é fruto do amor ou da violência.

Tudo se passa em uma residência situada em um bairro próximo ao porto de Manaus. Aí o narrador presencia as tramas urdidas no seio de uma família importante, que envolvem afetos ardentes, revanche, relacionamentos perigosos. O leitor entra em contato com este universo através do ponto de vista de Nael, que tudo vê da ótica de sua própria classe social, que molda nitidamente sua vivência cultural.

É assim que o leitor é apresentado ao chefe da família, Halim, que se esforça para encontrar as respostas mais corretas diante dos impasses familiares; à matriarca Zana, que não oculta sua predileção por Omar; à irmã Rânia, que mantém uma ambígua relação com os irmãos; à singela e generosa Domingas, mãe de Nael.

O enredo tem início com o retorno de Yaqub, que na adolescência fora sacrificado pela família, afastado aos treze anos do convívio familiar para que o confronto entre ele e Omar fosse atenuado. Esta decisão marca definitivamente a vida deste personagem, preterido em prol do irmão. Apesar de tudo, porém, o rapaz progride profissionalmente e contrai matrimônio com Lívia, antigo amor dos dois irmãos, o que agrava o conflito entre ambos. Nael, por sua vez, impedido de estudar pelo esforço de sobrevivência, é marcado pela condição de bastardo e mantém a idéia fixa de desvendar sua paternidade.

Fontes:
http://resumos.netsaber.com.br/ver_resumo_c_919.html
http://www.digestivocultural.com/colunistas/coluna.asp?codigo=2331
http://guiadoestudante.abril.com.br/estude/literatura/materia_419529.shtml