Estorvo

Por Ana Lucia Santana
O primeiro livro de ficção do cantor, compositor e escritor Chico Buarque, Estorvo, lançado em 1991 pela editora Companhia das Letras, se desenrola no cenário urbano tão familiar ao leitor. Neste palco repleto de luzes o protagonista se volta, obsessivamente, para uma vida quase que exclusivamente interiorizada.

Nesta obra, em que Chico se revela também na literatura um virtuose das palavras, expressas aqui com a máxima singeleza, o autor revela um ser perdido e confuso, mergulhado nas inúmeras possibilidades que a existência comporta. Para cada evento pessoal ele cria e recria várias probabilidades de ação.

Assim, o personagem transforma-se no próprio estorvo – expressão que significa ‘dificuldade, impedimento’. É justamente o que ele faz consigo mesmo. Ao passar e repassar mentalmente tudo que se passa e se passará em sua jornada existencial, na fronteira entre o devaneio e a lucidez, a fantasia e a realidade, ele elabora duas versões para sua vida.

De um lado, a razão, ou seja, como tudo realmente aconteceu. De outro, a idealização, melhor dizendo, como teriam se desenrolado os fatos se ele tivesse optado por outra solução, outro caminho. Dividido entre o real e o irreal, o protagonista de Chico não avança, trava sua caminhada, estorva sua própria trajetória. Ele permanece embaraçado, enovelado em si mesmo.

Desprovido de nome, este personagem nem sequer consegue construir a sua identidade. Assim sendo, ele não se integra no corpo social; portanto, vive à margem da sociedade. Este ser está sempre à beira da desesperança, e é a personificação de uma rotina pungente. Seu trajeto é traduzido, no livro, por uma narrativa não linear, relatada na primeira pessoa.

A história, que muitas vezes assume um tom típico dos romances policiais, adota a cidade como uma moldura que envolve a trama, conferindo-lhe, assim, um ar de contemporaneidade, de novidades que incidem sobre seu olhar. Esta modernidade imprime também no personagem uma carga de medos, preocupações e perplexidades, além de deflagrar em sua mente um inevitável alheamento da realidade.

O livro Zero, do escritor Ignácio de Loyola Brandão, publicado em plena vigência da Ditadura Militar e submetido à censura, em 1979, exerce sobre Estorvo uma ascendência inquestionável. Vários críticos reconhecem esta fonte como influência legítima em Chico Buarque na criação deste volume.

Chico compõe, sem dúvida, uma obra que, linguisticamente, subverte a Literatura Brasileira Contemporânea, embora em aspectos temáticos ele reaproveite antigas questões, idéias e símbolos já trabalhados por outros autores literários. Suas inovações estéticas, porém, lhe garantem a posição que ocupa, hoje, entre as melhores obras produzidas na atualidade. A crítica literária, em grande parte, lhe credita um certo amadurecimento e, em decorrência disso, uma vaga no cânone da literatura brasileira contemporânea.

Fontes:
http://pt.shvoong.com/books/1723678-estorvo/
http://recantodasletras.uol.com.br/resenhasdelivros/1004465