Eu vos abraço, Milhões

Por Ana Lucia Santana
O livro Eu vos abraço, Milhões é mais uma criação do gaúcho Moacyr Scliar que promete se tornar uma obra-prima. A começar por seu título, que remete a uma poesia do alemão Friedrich Schiller, a qual está discretamente presente no enredo, mais nas entrelinhas que em seu conteúdo.

O enredo também encanta e cativa o leitor. A trama se desenrola como uma daquelas velhas histórias contadas a um neto por seu avô, em um recanto aprazível da casa, em uma serena manhã de domingo. Só que esta narrativa é, na verdade, um relato da trajetória existencial do protagonista, Valdo, nascido em uma fazenda de criação de gado, na cidade de Santo Ângelo, no Rio Grande do Sul.

Esta obra, que se parece igualmente com uma extensa epístola, revela primeiramente a criança, filho de um capataz da estância, sua determinação em estudar, o despertar do amor pela literatura, com a ajuda de sua mestra, que o inicia neste campo, particularmente através de Machado de Assis.

Valdo dá uma guinada em sua vida ao conhecer o filho de sua professora, Geninho, pois a partir de então o garoto passa a lhe orientar ideologicamente. Já adolescente, ele se engaja na luta política ao lado dos comunistas, quando tinha somente 15 anos, justamente no período em que se inicia a década de 30, o país passa por séria crise econômica, a qual abala todo o globo, cresce o prestígio da Coluna Prestes e é deflagrada a Revolução de 1930.

A aproximação de Valdo da doutrina comunista também se dá através da literatura, embora os novos ideais alterem igualmente suas preferências literárias. Nesta época ele se volta contra seu antigo mestre, Machado de Assis, por considerá-lo um membro da burguesia; ele chega até mesmo a colocar fogo em uma edição de Dom Casmurro. Até mesmo Euclides da Cunha, com seu clássico Os Sertões, é visto por ele com suspeita e um certo desprezo.

Para ingressar no Partido Comunista ele abandona os familiares e segue para o Rio de Janeiro, mas nas engrenagens da política ele encontra a dura realidade, a qual contrasta com suas fantasias da juventude. Vivendo na então capital do Brasil, na casa de um companheiro, ele encontra momentos felizes no interior de uma livraria.

O autor da obra destaca a importância dos livros na existência não só de Valdo, mas igualmente de seus companheiros de jornada, que viam na literatura um refúgio seguro, e professavam sua fé nas linhas entretecidas por mãos e mentes distintas. Moacyr vê nesta devoção quase religiosa sua própria experiência com a literatura, uma vez que sua geração, que sucede a do personagem Valdo, foi movida também pelos acontecimentos desta época.

O percurso de Valdo, nesta obra, é, de certa forma, a do próprio Partido, a qual parte das aspirações que produzem os mais diversos devaneios, e culmina nas armadilhas do poder autoritário, seguindo, finalmente, as trilhas da submissão do operariado. É cruel, para Valdo e os demais comunistas, ver seus sonhos desaguarem nas águas do regime criado por Stalin, um totalitarista de esquerda.

Fontes:
http://www.meiapalavra.com.br/showthread.php?tid=5457
http://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia182/2010/09/27/diversaoearte,i=214996/NOVO+ROMANCE+DE+MOACYR+SCLIAR+SE+INTROMETE+NA+HISTORIA+PELA+PORTA+DA+FICCAO.shtml