Invenção de Orfeu

Por Ana Lucia Santana
A obra Invenção de Orfeu, última produção artística do poeta Jorge de Lima, apresenta uma singular paródia do clássico de Camões, Os Lusíadas. Mas não é apenas a influência do autor português que está presente neste livro; ela se soma a temáticas extraídas da Divina Comédia, de Dante.

Assim sendo, é possível encontrar em Invenção de Orfeu referências constantes à jornada, à descoberta da ilha, às dimensões ocultas do ‘id’, que revelam a espessura da existência, os impulsos espontâneos, a Musa inspiradora, Orfeu, os círculos do Inferno e do Paraíso. Além disso, este livro expressa poeticamente a negritude e a religião do homem brasileiro, misto de europeu e africano, bem como todos os seus valores.

Todo este rico conteúdo está expresso nesta obra em fórmulas formais fixas, tais como sonetos, oitavas, rimas e sextinas, o que resulta em um estilo surreal permeado por preceitos barrocos, o qual destaca a importância da poesia enquanto arte de lavrar palavras. Assim concebida, esta obra demonstra a força da imagem, capaz de traduzir a ancestral cultura brasileira, impregnada da energia informe e disseminada das raças que a moldaram.

O autor transmite ao leitor, em Invenção de Orfeu, um clima mesclado de concepções católicas, visões oníricas e surrealistas. E desta forma elabora sua teodisséia, ou seja, sua viagem na direção do Divino, que expressa a procura essencial do ser humano, em incessante busca do apogeu espiritual.

Jorge de Lima empreende este projeto ao narrar a história de um barão despojado de tudo que caracteriza a nobreza; neste estágio ele recorda a era gloriosa de sua existência, os feitos extraordinários, o assentamento de uma ilha que é o símbolo do Brasil, até beirar a eclosão do apocalipse.

A complexidade deste poema está em sua lapidação formal – dez cantos fracionados, versos rigidamente metrificados e perfeitamente rimados, intercalados a outros compostos no estilo do metro livre e do verso branco; todos estes ingredientes mesclados a sonetos, canções, baladas, formatos épicos e líricos, oitavas clássicas, tercetos e sextinas.

Este invólucro formal envolve referências à meninice, a fatos tecidos pelo imaginário surrealista, a rascunhos dramáticos e a uma dose de farsa. Desta forma o autor atualiza o gênero da epopéia, despojando-o de seu caráter folhetinesco e de qualquer vínculo com a dimensão espaço-temporal.

Este extenso poema é como uma colcha de retalhos que alia elementos de obras como a Divina Comédia, Eneida, Os Lusíadas, as Escrituras Sagradas e elementos da brasilidade. Após ficar indisponível por vinte anos, a obra deste alagoano foi finalmente reeditada pela Editora Record.

A sua leitura ainda é praticada por um grupo restrito, talvez, em parte, pela tradição realista da história literária brasileira que, além de exigir a presença de uma crítica social e de uma linguagem coloquial na poesia nacional, ainda exclui terminantemente a presença do sagrado neste gênero.

Fontes:
http://www.sosestudante.com/resumos-i/invencao-de-orfeu-jorge-de-lima.html
http://www.passeiweb.com/na_ponta_lingua/livros/resumos_comentarios/i/invencao_de_orfeu
http://www.digestivocultural.com/colunistas/coluna.asp?codigo=1669