Labirinto
Tanto tem se falado, nos últimos tempos, sobre o Santo Graal. Uma moda passageira, ou alguma relação especial entre a Era Medieval, à qual remonta suas origens, e o mundo contemporâneo? Mas, afinal, qual o significado dessa figura e qual a sua conexão com a Literatura Universal? Trata-se de um símbolo ou de um artefato concreto? E qual a sua suposta associação com momentos históricos de intolerância religiosa?
Nas histórias de conteúdo cátaro – seita cristã considerada herética na Idade Média – o Graal transforma-se em um livro, a própria mensagem escrita, o conhecimento sagrado, e sob essa forma possui um terrível poder. O ciclo do Graal foi praticamente criado de 1180 até 1230, o que permite relacionar essa literatura com a sangrenta repressão que praticamente exterminou os adeptos dessa suposta heresia. Alguns historiadores acreditam que, com a fortaleza de Montségur sitiada, prevendo a derrota, os cátaros emparedaram o Graal em algum dos muros de seus inumeráveis subterrâneos, onde ele se encontraria até hoje.
A obra “Labirinto”, da escritora inglesa Kate Mosse, caminha justamente por essa trilha, abordando a concepção cátara do Santo Graal e, mais que isso, permitindo uma ponte com os tempos atuais, possibilitando estabelecer uma relação estreita entre a intolerância na Era Medieval e no Mundo Contemporâneo. Pensando nas guerras que assolam principalmente o Oriente Médio, como as que envolvem atualmente Israel, Líbano e Palestina, quem pode negar as semelhanças?
Nesse livro o leitor, em busca do Santo Graal, caminha como se estivesse percorrendo um labirinto. Cada um deve empreender sua busca particular e em nenhum momento a autora facilita esse percurso, já que ela tece uma narrativa realmente labiríntica, navegando no tempo e no espaço, rumo ao segredo oculto, em alguns momentos apenas entrevisto, adivinhado. Ao ler o livro, tem-se a sensação de tatear às escuras em busca de pistas que clareiam pouco a pouco a jornada. Pressentem-se os caminhos mais viáveis, os riscos e perigos que espreitam em cada direção. Não cabe, portanto, apenas às protagonistas da história decifrar os segredos da trama, mas também a cada leitor. Aliás, trata-se não só de desvendar o mistério do Graal, o que se descobre antes do final da trama, mas principalmente de interpretar sua essência, seu simbolismo mais profundo.
Essa obra mescla história e ficção, mas ouso afirmar que o mais fascinante em suas páginas é o mergulho no passado histórico, numa era de comunhão, tolerância e harmonia entre as várias crenças, invadida pela intolerância e pelas perseguições religiosas; em um mundo iluminado que é subitamente assaltado pelas sombras, por um período de dor e sangue. É uma história de luta e fé, determinação e coragem diante do avanço da mais crua violência, da mais fria crueldade. É nesse contexto que o Santo Graal deve conquistar o significado mais profundo. E é então que Kate Mosse nos propõe uma questão ainda mais complexa. Qual o elo desse momento histórico com os dias atuais, no mesmo cenário, nas mesmas labirínticas conexões entre personagens e grupos tão estranhamente familiares? Que sentido adquire, em uma fase tão distinta da jornada humana, a busca do Santo Graal?
Essas questões também estão muito presentes em “O Código da Vinci”, de Dan Brown, que também aborda momentos diferentes da caminhada do Homem. Nessa narrativa, novamente a busca do Santo Graal é empreendida tanto em um passado distante, ao longo da História, quanto nos nossos dias. A trama é bem menos tortuosa, mas não menos polêmica e complexa. Ela é repleta de simbologias e remete o leitor, em alguns instantes, a um momento de comunhão entre a humanidade e a Natureza, entre o Masculino e o Feminino – a Era da Deusa.
Mais uma vez um espaço espiritualmente harmonioso, em que a fusão verdadeira entre o Homem e a Mulher era o caminho para o Divino, é perturbado pela intolerância, por perseguições religiosas, por lutas fratricidas. Embora o Santo Graal, nessa obra, seja um símbolo criado bem depois, durante a passagem de Jesus pelo Planeta, ele está intimamente conectado à Era da Deusa.
Tanto nesse livro quanto em “O Labirinto” há uma ênfase no Feminino – ao contrário do ciclo Arthuriano, no qual os protagonistas são masculinos, cabendo às mulheres um discreto papel de coadjuvantes. Assim, pode-se dizer que as heroínas dessas duas obras estão filiadas à linhagem das personagens de “As Brumas de Avalon” – mais que uma versão feminina das histórias do Rei Arthur, decididamente uma tradição fundada, até onde sei, por Marion Zimmer Bradley, instintivamente seguida por Kate Mosse e Dan Brown.

Kate Mosse Nesse momento propício, em que as pessoas buscam talvez seu próprio Graal, há uma avalanche de publicações sobre o tema. Mas são raros os autores que se destacam e criam uma literatura séria e talentosa. É o caso de Kate Mosse, membro da Royal Society of Arts, autora de outros dois romances e de livros de não-ficção, ganhadora do Prêmio de Realização Feminina da Europa em 2000, por sua contribuição às Artes, e do British Book Award, em 2006, por “Labirinto”.
Com certeza o sucesso dessas histórias está já há algum tempo garantido no coração do público, carente da compreensão de sua própria busca, de sua própria jornada, já há muito empreendida por personagens inesquecíveis, oculta sob outras formas, outras miragens: Rei Arthur e seus Cavaleiros; Dom Quixote e seu fiel escudeiro Sancho Pança; Dante em sua passagem pelos Círculos do Inferno, do Purgatório e do Céu; Riobaldo em suas veredas interiores, tentando compreender e aceitar a morte de Diadorim; e tantos outros inesquecíveis heróis da literatura.
Nas histórias de conteúdo cátaro – seita cristã considerada herética na Idade Média – o Graal transforma-se em um livro, a própria mensagem escrita, o conhecimento sagrado, e sob essa forma possui um terrível poder. O ciclo do Graal foi praticamente criado de 1180 até 1230, o que permite relacionar essa literatura com a sangrenta repressão que praticamente exterminou os adeptos dessa suposta heresia. Alguns historiadores acreditam que, com a fortaleza de Montségur sitiada, prevendo a derrota, os cátaros emparedaram o Graal em algum dos muros de seus inumeráveis subterrâneos, onde ele se encontraria até hoje.
Nesse livro o leitor, em busca do Santo Graal, caminha como se estivesse percorrendo um labirinto. Cada um deve empreender sua busca particular e em nenhum momento a autora facilita esse percurso, já que ela tece uma narrativa realmente labiríntica, navegando no tempo e no espaço, rumo ao segredo oculto, em alguns momentos apenas entrevisto, adivinhado. Ao ler o livro, tem-se a sensação de tatear às escuras em busca de pistas que clareiam pouco a pouco a jornada. Pressentem-se os caminhos mais viáveis, os riscos e perigos que espreitam em cada direção. Não cabe, portanto, apenas às protagonistas da história decifrar os segredos da trama, mas também a cada leitor. Aliás, trata-se não só de desvendar o mistério do Graal, o que se descobre antes do final da trama, mas principalmente de interpretar sua essência, seu simbolismo mais profundo.
Essa obra mescla história e ficção, mas ouso afirmar que o mais fascinante em suas páginas é o mergulho no passado histórico, numa era de comunhão, tolerância e harmonia entre as várias crenças, invadida pela intolerância e pelas perseguições religiosas; em um mundo iluminado que é subitamente assaltado pelas sombras, por um período de dor e sangue. É uma história de luta e fé, determinação e coragem diante do avanço da mais crua violência, da mais fria crueldade. É nesse contexto que o Santo Graal deve conquistar o significado mais profundo. E é então que Kate Mosse nos propõe uma questão ainda mais complexa. Qual o elo desse momento histórico com os dias atuais, no mesmo cenário, nas mesmas labirínticas conexões entre personagens e grupos tão estranhamente familiares? Que sentido adquire, em uma fase tão distinta da jornada humana, a busca do Santo Graal?
Mais uma vez um espaço espiritualmente harmonioso, em que a fusão verdadeira entre o Homem e a Mulher era o caminho para o Divino, é perturbado pela intolerância, por perseguições religiosas, por lutas fratricidas. Embora o Santo Graal, nessa obra, seja um símbolo criado bem depois, durante a passagem de Jesus pelo Planeta, ele está intimamente conectado à Era da Deusa.
Tanto nesse livro quanto em “O Labirinto” há uma ênfase no Feminino – ao contrário do ciclo Arthuriano, no qual os protagonistas são masculinos, cabendo às mulheres um discreto papel de coadjuvantes. Assim, pode-se dizer que as heroínas dessas duas obras estão filiadas à linhagem das personagens de “As Brumas de Avalon” – mais que uma versão feminina das histórias do Rei Arthur, decididamente uma tradição fundada, até onde sei, por Marion Zimmer Bradley, instintivamente seguida por Kate Mosse e Dan Brown.
Com certeza o sucesso dessas histórias está já há algum tempo garantido no coração do público, carente da compreensão de sua própria busca, de sua própria jornada, já há muito empreendida por personagens inesquecíveis, oculta sob outras formas, outras miragens: Rei Arthur e seus Cavaleiros; Dom Quixote e seu fiel escudeiro Sancho Pança; Dante em sua passagem pelos Círculos do Inferno, do Purgatório e do Céu; Riobaldo em suas veredas interiores, tentando compreender e aceitar a morte de Diadorim; e tantos outros inesquecíveis heróis da literatura.
Bibliografia
“Labirinto” – Kate Mosse - Editora Suma de Letras, 564 pp.
“O Código da Vinci” – Dan Brown – Editora Sextante, 423 pp.
“As Brumas de Avalon” – Marion Zimmer Bradley – Editora Imago, 4 volumes.
“As Brumas de Avalon” – DVD - Warner Home Vídeo, 183 minutos.
“O Código da Vinci” – Dan Brown – Editora Sextante, 423 pp.
“As Brumas de Avalon” – Marion Zimmer Bradley – Editora Imago, 4 volumes.
“As Brumas de Avalon” – DVD - Warner Home Vídeo, 183 minutos.
| Autores: Ana Lucia Santana Categorias: Livros | Cristianismo | |
![]() | Data: 21/06/2008 |



