Literatura Oriental Contemporânea

Por Ana Lucia Santana
Durante muito tempo o Oriente sofreu profundas influências do Ocidente. O modo de vida europeu, e atualmente também o norte-americano, tornaram-se praticamente o padrão de cultura e civilização. Recentemente, porém, um fenômeno cultural vem se intensificando no lado ocidental – um interesse crescente pela literatura oriental.

Talvez tudo tenha começado com o escritor Salman Rushdie, indiano de Bombaim, autor do polêmico “Os Versos Satânicos”, publicado em 1989 – no qual supostamente ofende o profeta Maomé e rejeita o Islamismo -, mas antes disso já consagrado por sua obra “Os Filhos da Meia-Noite”, vencedor do Booker Prize em 1981. Perseguido pelo Islã e jurado de morte pelo Ayatollah Khomeini, sua obra começou a despertar a atenção dos ocidentais, porém ainda restrita aos círculos mais eruditos.

É difícil avaliar como obras que discorrem sobre o Afeganistão, a Índia, a China e a Turquia, entre outros, passaram a atrair o interesse de tantos leitores, algumas se tornando campeãs de venda. É fato que “O Caçador de Pipas”, de Khaled Housseini, lançado no Brasil em 2005 pela Editora Nova Fronteira, tornou-se um sucesso - em média 500 mil exemplares vendidos. Housseini nasceu em Cabul em 1965 e exilou-se nos Estados Unidos após a invasão do país pela ex-União Soviética. Formou-se em medicina e vive atualmente na Califórnia. Esta obra teve tal repercussão que o diretor Marc Forster, cineasta de “Mais Estranho que a Ficção”, decidiu adaptar sua trama para o cinema.

Seu processo de escrita teve início em 2001. O autor afirma que tinha em mente dois meninos – um emocionalmente inseguro e de caráter moralmente duvidoso, o outro puro e íntegro. A princípio Khaled não pretendia publicar esta obra, mas sim escrever para si mesmo, os parentes e amigos mais próximos. O episódio do ataque às Torres Gêmeas do World Trade Center, em 11 de setembro de 2001, contribuiu para que o autor cedesse às pressões de amigos e familiares a favor da publicação de “O Caçador de Pipas”. Talvez essa seja uma das chaves para compreender o súbito interesse dos leitores ocidentais por essa e outras obras - entender o outro, o suposto inimigo, sua cultura, suas crenças e costumes, suas reais motivações.

De repente, nesta trama que se passa nos anos 70, no período anterior à invasão russa, o leitor se vê diante de afegãos comuns, do seu cotidiano, e não perante terroristas enfurecidos, restritos apenas ao Talibã. A aceitação deste livro no mundo inteiro é surpreendente até mesmo para Khaled Housseini, como ele explicita no Prefácio da versão ilustrada desta obra. Com certeza, um dos fatores responsáveis pelo êxito de “O Caçador de Pipas” é a universalização das experiências humanas nele retratadas, tais como ódio, inveja, vergonha, culpa, amor, perdão, amizade. O que seduz o leitor neste livro não é só a oportunidade de compreender o outro, suas diferenças, a diversidade cultural, mas perceber o quanto este estranho, que habita um universo até então desconhecido e demonizado pela cultura ocidental, é tão semelhante a ele em suas emoções, conflitos e desejos.

O mercado editorial reagiu tão bem a esta investida oriental, que logo surgiram inúmeros outros títulos referentes a esta temática - imediatamente incluídos nas listas dos mais vendidos –, tais como “O Livreiro de Cabul” e “101 Dias em Bagdá”, ambos de Âsne Seierstad, “Mulheres de Cabul”, de Harriet Logan, “Cabul no Inverno”, de Ann Jones, “Cartas de Herat”, de Christina Lamb, entre outros. As estantes das livrarias estão repletas também de livros mais gerais sobre a cultura muçulmana, preenchendo a necessidade premente do leitor ocidental de saber cada vez mais sobre esta esfera recém-descoberta – “A Sexualidade no Islã”, de Abdulwahab Bouhdiba, “Lendo Lolita em Teerã”, de Azar Nafisi e “O Mundo Muçulmano”, de Peter Demant.

Por outro lado, o Prêmio Nobel de Literatura de 2006 foi para as mãos do escritor turco Orhan Pamuk, autor de “Neve” e do aclamado “Meu Nome é Vermelho” - ambos editados no Brasil pela Cia das Letras. Primeiro escritor turco a ganhar um Nobel, Pamuk nasceu em uma família rica de Istambul e formou-se no exterior em Engenharia, Arquitetura e Jornalismo. A partir de 1974, porém, decidiu dedicar-se exclusivamente à literatura. Maior romancista da Turquia na atualidade, envolveu-se em uma controvérsia no seu país, ao denunciar o massacre cometido por seus conterrâneos contra os armênios, durante a Primeira Guerra Mundial, e o genocídio de 30 mil curdos, posteriormente. No dia 24 de janeiro de 2007, o escritor foi ameaçado de morte por Yasin Hayal, um dos detidos pelo assassinato do jornalista turco de origem armênia Hrant Dink. Desde suas polêmicas declarações o autor tornou-se alvo dos nacionalistas turcos, que o consideram um traidor da pátria.

Certamente Orhan Pamuk e outros escritores orientais não esperavam uma acolhida tão receptiva do mercado editorial ocidental, talvez nem mesmo os próprios editores compreendam ainda o porquê deste boom literário. Mesmo que essa temporada oriental no mercado editorial seja passageira, alguns desses autores já conquistaram seus fãs, e com eles um lugar no mundo dos negócios literários do Ocidente. Resta saber se povos como os do Afeganistão, Iraque, Irã e Turquia, oprimidos pela presença direta ou indireta dos ocidentais, terão um dia algum interesse em conhecer melhor a face deste mundo que até hoje representa apenas poder e ameaça bélica e cultural.

Fontes
“O Caçador de Pipas”, Versão Ilustrada – Khaled Housseini – Editora Nova Fronteira, 479 pp.
“O Livreiro de Cabul” - Âsne Seierstad – Editora Record, 320 pp.
“Mulheres de Cabul” - Harriet Logan – Geração Editorial – 128 pp.
“Lendo Lolita em Teerã” - Azar Nafisi – Editora Girafa, 504 pp.
“O Mundo Muçulmano” - Peter Demant – Editora Contexto, 428 pp.
“Meu Nome é Vermelho” - Orhan Pamuk – Cia das Letras, 536 pp.
“Os Versos Satânicos” – Salman Rushdie – Cia das Letras, 528 pp., R$ 63,50