O Escafandro e a Borboleta

Por Ana Lucia Santana
O célebre jornalista e redator francês Jean-Dominique Bauby sofreu, no dia 8 de dezembro de 1995, um Acidente Vascular Cerebral, e entrou em coma; assim que saiu desta condição, ele se viu acometido pela incomum ‘Locked-in Syndrome’, que não deixa o paciente se mobilizar, fazer suas refeições, se comunicar verbalmente e até mesmo respirar, sem o auxílio de aparelhos.

Sua lucidez intelectual, porém, continuou a cintilar em seu cérebro, o que o levou a tomar uma súbita decisão, criar uma obra na qual pudesse relatar suas experiências e expressar seus sentimentos. Como o olho esquerdo era o único órgão de seu organismo a se manter ativo, Jean produziu um sistema de comunicação original.

O jornalista mobilizou um alfabeto condizente com suas condições, auxiliado por sua fonoaudióloga, o ESA, que lhe permitia ditar as letras bem devagar, em ordem decrescente de repetição no idioma francês; ele piscava o olho esquerdo assim que a letra desejada era recitada.

Desta forma o paciente, imobilizado em seu escafandro – equipamento hermeticamente fechado, e que os mergulhadores vestem para trabalharem sob a água -, uma alusão metafórica aos aparelhos nos quais ele vivia recluso, interage com a esfera social. No leito ele vivia submisso a tudo e a todos, mas através de seu livro, “O Escafandro e a Borboleta“, o escritor se libertava, como a borboleta se libera do seu casulo.

Ao longo de 15 meses ele permaneceu nestas condições, com o corpo aprisionado e a consciência totalmente livre, o que, com certeza, gerava em seu íntimo uma terrível angústia. A obra mescla o retrato da condição na qual ele vivia e memórias de sua vida antes do acidente vascular.

Ao mesmo tempo em que o leitor vivencia sua aflição e a profunda tristeza de não poder, por exemplo, tocar seus filhos, ele também experimenta a intensa habilidade e a veloz atividade de sua mente, a qual, ainda que em um organismo imóvel, é capaz de agir e, através de suas atitudes, transmitir preciosas lições de vida.

Quantas pessoas, sem perceberem o quanto são livres e capazes, se tornam cativas de medos e inseguranças?  Elas com certeza encontrarão muitas respostas neste livro, que foi publicado em 1997. Concluída sua missão, Bauby faleceu apenas dez dias após o lançamento de sua obra-prima, vítima de uma pneumonia, aos 45 anos. Ele foi sepultado na lápide familiar, no Cemitério Pére-Lachaise, em Paris.

Ironicamente, o jornal O Estado de São Paulo veiculou, no mesmo dia de sua morte, sem consciência deste fato, um texto reproduzido do inglês The Guardian, o qual discorria sobre o livro de Jean; um dia depois a Folha de São Paulo divulgou seu falecimento. O jornalista, ex-editor da revista Elle, deixou dois filhos – Théophile e Céleste. Hortense, a suposta terceira filha citada no livro, é apenas um personagem de ficção.

Em 2007 este livro impactante foi convertido para as telas dos cinemas, com o mesmo título, sob a direção do cineasta Julian Schnabel, e protagonizado pelo intérprete francês Mathieu Amalric; a versão cinematográfica foi amplamente premiada, conquistando a estatueta de Melhor Diretor no Festival de Cannes de 2007, um Globo de Ouro e uma indicação ao Oscar de Melhor Diretor.

Fontes:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Jean-Dominique_Bauby
http://revistalingua.uol.com.br/textos.asp?codigo=11399
http://criticasconstrutivas.blogspot.com/2008/09/resenha-o-escafandro-e-borboleta-jean.html


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