O Último Papa

Por Ana Lucia Santana
Luís Miguel Rocha, escritor e jornalista português, tece o livro “O Último Papa“,  thriller surpreendente que mescla realidade e ficção, com uma deliciosa maestria e uma ironia profunda, a qual perpassa desde temas religiosos, alguns deles praticamente tabus, até complexas questões políticas de alcance mundial.

As páginas finais do livro, nas quais está impressa uma lista de personagens bem reais, acrescidas de um resumo de sua participação na trama, deixam clara a proporção de realidade que cabe a esta história. No mais, trata-se apenas de uma hipótese aventada pelo autor para explicar a morte do Papa João Paulo I; algo, porém, bem plausível.

Poderia se tratar de mais uma teoria conspiratória, mas o estilo refinado de Rocha, sua inegável erudição, a vivência jornalística em inúmeras emissoras britânicas e o rol de pessoas e instituições históricas citadas nesta obra conferem um caráter razoável às possibilidades levantadas pelo autor nas linhas e entrelinhas da narrativa.

Algumas verdades deveriam ficar bem enterradas, mas o destino, às vezes, permite que elas venham à luz e desencadeiem uma avalanche de acontecimentos que podem mobilizar nações, agências de serviço secretos, veículos da própria mídia, pessoas e instituições poderosas, como a temível loja maçônica P2 – Propaganda Due – e o Vaticano, em um esforço conjunto para eliminarem as evidências que renascem.

Neste livro as tais verdades, expressas em antigos papéis, que incriminam governantes, membros da Cúria Romana, entre outros detentores do poder comodamente enraizados em sua completa imunidade, à custa da vida e da inocente credulidade alheia, vão parar nas mãos da jornalista Sarah Monteiro, filha do capitão português Raul Monteiro e de uma típica inglesa.

Sarah vê sua vida, da noite para o dia, virar literalmente de cabeça para baixo. Por conta de erros cometidos pelo pai no passado, ela se vê envolvida no turbilhão provocado pelo ressurgir de documentos que trazem de volta momentos que todos os implicados desejariam ver submersos nos bastidores da aparente realidade.

A jornalista passa a ser perseguida implacavelmente e, com a ajuda de um misterioso protetor indicado pela figura paterna, supostamente denominado Rafael, mas que, na verdade, oculta sua verdadeira identidade, ela vai fugir e, ao mesmo tempo, conhecer as camadas ocultas do que ela acreditava ser o real mais concreto.

Em inúmeros momentos, ao longo de sua desesperada luta pela sobrevivência, a protagonista desejaria nunca ter alcançado o âmago das engrenagens que movem o mundo moderno. Subitamente ela vê ruir por terra todas as suas crenças, a segurança nas autoridades constituídas, a fé nas instituições.

É através da reconstituição do suposto assassinato de João Paulo I que o autor vai desconstruindo os baluartes políticos, a religião institucional, os mitos da democracia e do liberalismo econômico. Os personagens armam suas estratégias e as executam implacavelmente neste complexo jogo de xadrez, no qual estão lançados, em cada jogada, os dados da vida e da morte.

Sucedem-se lances nos quais estão implicados, além da P2, comandada pelo mítico Licio Gelli, figuras como Roberto Calvi, presidente do Banco Ambrosiano, conhecido como o Banqueiro de Deus, por suas suspeitas relações com o Banco do Vaticano, comandado pelo arcebispo norte-americano Paul Marcinkus; sem falar do envolvimento do próprio secretário de Estado do Vaticano, o cardeal francês Jean-Marie Villot.

O leitor se surpreenderá, a cada página, com a revelação de terríveis segredos que interligam eventos internacionais aparentemente aleatórios, como o caso Irã-Contras, que culminou, em 1986, no assassinato do primeiro-ministro sueco Olof Palme, e a morte do político italiano Aldo Moro, em 1978, supostamente nas mãos das Brigadas Vermelhas.

O autor alega ter acessado os textos secretos retratados nesta obra através do próprio executor do Papa João Paulo I; aliás, logo depois da conclusão da trama, o suposto assassino afirma ter permitido a publicação deste livro com uma condição irrecusável – mesclar ingredientes de ficção ao tecido consistente que sustenta o enredo. Para validar sua versão, o escritor revela que profissionais gabaritados dos jornais La Repubblica e The Guardian também abrigam informações fundamentais sobre esta intrigante história, as quais virão a público no devido tempo.

Luís Miguel Rocha nasceu na cidade do Porto, em 1976; formado em jornalismo, iniciou sua trajetória profissional como produtor da Tevê Independente, TVI, quando tinha ainda 20 anos. Antes de publicar seu primeiro livro, Um País Encantado, em 2005, atuou também como roteirista.

Atualmente ele se dedica integralmente à literatura, uma sorte para o leitor, que poderá, quem sabe, contar, em outras produções de sua autoria, com a ironia ímpar que se traduz, nesta obra, em passagens saborosas, nas quais ele suspende a narrativa eletrizante para tecer comentários sobre a história de Portugal, as origens de atentados supostamente cometidos por terroristas árabes, bem como para elaborar picantes alusões aos figurinos dos vilões do filme Matrix, entre inúmeras outras preciosidades críticas e divertidas.

Fontes:
Luís Miguel Rocha. O Último Papa. Ediouro, São Paulo, 2008, 399 pp.


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