O Visconde partido ao meio

Por Ana Lucia Santana
Esta obra de Italo Calvino fala sobre extremos, personalidades mutiladas e a natureza do ser humano. Ela integra a trilogia Nossos Antepassados, da qual já foram publicados O Cavaleiro Inexistente e O Barão das Árvores, mas tem autonomia suficiente para ser compreendida mesmo sem a leitura dos volumes anteriores.

A história, que flerta com o gênero fantástico, é uma bem-humorada crítica ao mundo pós-moderno. O segundo livro de Calvino conta a trajetória inusitada do Visconde Medardo di Terralba, um tenente muito jovem que ainda transpira a audácia de um adolescente e, movido por esta energia transbordante, declara guerra aos turcos.

No auge do combate, que prometia um desfecho triunfante, o visconde se postou diante do canhão adversário e foi atingido por uma bala, a qual o partiu ao meio. Uma de suas metades, resgatada por doutores que integram as forças armadas cristãs, retorna a sua terra natal, Terralba, e assombra seus habitantes com sua maldade radical e a alma mergulhada em trevas.

É de se imaginar como o autor descreve o protagonista neste momento, realmente fracionado pela metade: um olho, meio nariz, uma perna, e assim por diante. Uma imagem verdadeiramente cômica. Quando os moradores da cidade começam a se habituar com a criatura que lembra a outra personalidade do Dr. Jekyll, o senhor Hyde, a segunda metade retorna, após ser tratada por monges.

Novamente o povo se alvoroça, pois agora este duplo do visconde é extremamente bom, a ponto de não ser suportado. Como conciliar bem e mal tão opostos, de que forma encaixá-los em um homem partido? Este estranho conto de fadas nos faz refletir sobre as incoerências que compõem o ser humano.

O autor enfoca não somente o comportamento do visconde, mas também a reação da população às duas metades. Ele nos mostra o quão facilmente as pessoas podem se tornar apáticas diante da maldade e o quanto a bondade em demasia pode igualmente atemorizar as pessoas, desorientá-las. Afinal, como é possível coexistir com as oposições extremas, principalmente quando se trata do bem e do mal?

O escritor, porém, não alimentava muitas pretensões filosóficas ao escrever esta obra; ele visava especialmente se entreter e divertir os leitores. Ele acredita que a metáfora do visconde partido pode nos levar a meditar sobre o mundo em que vivemos, mas de uma forma leve e engraçada. Quem nunca se sentiu pela metade em algum momento?

Italo Calvino nasceu em Santiago de Las Vegas, em Cuba, no dia 15 de outubro de 1923. Os pais, italianos, regressaram à terra natal logo depois do nascimento do filho, que se tornaria um dos mais significativos escritores da Itália no século XX. Ele se graduou em Letras e integrou as fileiras do Partido Comunista Italiano até o ano de 1956, combatendo duramente o fascismo ao longo da Segunda Grande Guerra.

Sua missiva de desfiliação do Partido, em 1957, tornou-se extremamente popular. A estreia na carreira literária deu-se com o livro A trilha dos ninhos de aranha, de 1947. Sua obra mais famosa é As Cidades Invisíveis, publicada em 1972.

Fontes:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Italo_Calvino
http://blog.meiapalavra.com.br/2011/03/09/o-visconde-partido-ao-meio-italo-calvino/
http://www.sitedeliteratura.com/Litestrang/calvino1.htm