Os Fantasmas de Goya

Por Ana Lucia Santana
Nas primeiras páginas do livro Os Fantasmas de Goya o leitor pode se sentir um tanto entediado. Mas vale a pena insistir, porque logo depois a leitura se torna contagiante, irresistível. Fruto de uma parceria entre o roteirista premiado Jean-Claude Carriére e o diretor cinematográfico Milos Forman, esta obra desvenda em suas páginas os acontecimentos que marcaram os últimos anos do século XVIII na Espanha e na França, mudando definitivamente os rumos da Europa.

Neste período a Espanha era um império colonial poderoso, porém aprisionada ao passado, às tradições religiosas e culturais. Já na França a Revolução Francesa era um fato, e as idéias iluministas disseminavam-se por toda a Europa, soprando inclusive nas terras da América. Diante desta onda renovadora, a Espanha se escondia, fechava suas fronteiras às novidades francesas e a Inquisição, já enfraquecida pelo tempo, via-se diante de um dilema – fortalecer o Santo Ofício, retomando as antigas práticas, ou sucumbir diante do anticlericalismo e dos ideais laicos que chegavam da França. O inquisidor Lorenzo Casamares é o espírito arguto que reacende em seus companheiros a velha chama do combate religioso, das cruzadas contra os inimigos da fé.

Antes que a Igreja pereça, perca sua função e se torne uma mera instituição burocrática, Lorenzo defende a volta aos costumes antigos, ao temor a Deus, à ancestral noção do pecado, “inimigo útil” que resgata a grandeza da Igreja Católica, uma vez que ela é a representante de Deus na Terra, portanto o único caminho da salvação. A lógica de Lorenzo é tão sedutora e inteligente que, apesar de maquiavélica, pode provocar no leitor uma profunda admiração. Mas esta mesma lógica é perigosa, pois causa em seu criador uma embriaguez que o cega, impedindo-o de perceber dentro do próprio Evangelho nuances que contradizem seus argumentos, como a questão da conversão, que não implica na destruição dos “pecadores”, mas sim na sua transformação. Lorenzo é um homem contraditório, ao mesmo tempo moderno e esclarecido, conservador e reacionário, às vezes doce e sereno, em outros momentos sombrio e severo.

Nunca um autor mergulhou tão fundo na mente de um inquisidor. Geralmente as obras que discorrem sobre o tema detêm-se na história e nos mecanismos da Inquisição, e os membros do Santo Ofício ganham um perfil impessoal, como se eles não tivessem uma identidade própria, uma mentalidade pessoal. Os debates teológicos e os argumentos de Lorenzo para justificar os interrogatórios e as torturas praticadas pelos dominicanos, assemelham-se em sua estrutura aos diálogos criados pelos sofistas, e refletem antigas discussões, que permeiam ainda hoje as discussões realizadas pela Igreja. Ao longo destas contendas, o leitor pode levantar inúmeras questões, e uma delas tem com certeza uma resposta clara – a Igreja, como afirma Lorenzo, deseja salvar almas supostamente perdidas ou apenas perpetuar sua existência, seu poder?

Nesta trama os caminhos dos protagonistas se cruzam e se entrelaçam aos novos rumos tomados pela Inquisição. Francisco de Goya Y Lucientes acompanha o desenrolar da história não só como testemunha principal, mas como participante ativo, retratando os principais fatos desta época em sua obra majestosa, que atravessa os séculos. De mero retratista dos nobres, mercadores, militares e do alto clero, atrelado às encomendas que recebia, ele se transforma com o passar do tempo em um gênio da arte espanhola, amado e odiado, admirado e repelido. O pintor é uma figura peculiar, muitas vezes incoerente - hesitante e de certa forma covarde no sentido pragmático, é muito ousado em sua obra, e corajoso nas opiniões que sustenta sobre ela. Um dos fantasmas de Goya – o pintor via com suas mãos o que mais ninguém via, anjos e demônios que o perseguiam – era a jovem Inés Bilbatua, de quem o artista pintara um retrato. A partir do momento em que Lorenzo também posa para o pintor, e vê o quadro de Inés, seus destinos se cruzam e percorrem anos de reviravoltas históricas, não impunemente com certeza.

Inés descobre, aos 18 anos, o mundo – a princípio repleto de cores, risos, sons, cheiros e sabores. Este mesmo mundo revela-se depois terrível, sombrio e incompreensível. Lorenzo, por sua vez, embora assuma um discurso aparentemente coerente, distancia-se pouco a pouco da Razão. Neste cenário, perpassado por uma narrativa cruel, acentuada pela crença em um Deus punitivo, mesclada a um certo cinismo tranqüilo e suave dos inquisidores, a História não é mero pano de fundo. Napoleão Bonaparte, ao lado de Goya, é um dos principais personagens históricos deste enredo. Aliás, a leitura das páginas que detalham cada peripécia histórica equivale a uma brilhante aula de História, pois acompanha passo a passo o desenrolar dos fatos que se sucedem à Revolução Francesa – na França e na Espanha, com conseqüências inevitáveis para o resto da Europa – através de uma exposição dinâmica e envolvente.

Goya sobrevive a essa avalanche de mudanças que define uma nova era para o mundo ocidental. Mesmo surdo Goya continua pintando, cada vez melhor. Sua obra torna-se mais rica, retratando guerras, mortes, escombros, ruínas, a destruição de um mundo conhecido e sua transformação em algo inaceitável para o povo espanhol. Ao mergulhar no silêncio, ele parece ver imagens ainda mais assombrosas. Duas de suas telas pintadas neste período – seis anos depois dos acontecimentos que retratam – ficaram famosas, Dos de Mayo e Três de Mayo. Em 1799, o artista publicou Los Caprichos, série de oitenta gravuras que traz na capa do álbum um auto-retrato de Goya, e no interior os frutos de suas visões, chocantes e impiedosas, provocando muitas vezes perplexidade e horror em quem as vê.

Jean-Claude Carriére atuou com alguns dos maiores diretores de cinema, principalmente com Luís Buñuel em O Discreto Charme da Burguesia, Bela da Tarde e Esse Obscuro Objeto do Desejo, entre outros. Milos Forman nasceu na República Tcheca e é um dos mais importantes cineastas da atualidade. Dirigiu Um Estranho no Ninho, Hair, Amadeus, e outros. A parceria entre ambos com certeza criou uma pequena obra-prima, daquelas que se tornam inesquecíveis na galeria dos livros marcantes de cada leitor, especialmente por conta dos saborosos embates ideológicos e de suas terríveis conseqüências.

Fontes
Os Fantasmas de Goya – Jean-Claude Carriére e Milos Forman – Cia das Letras – 320 pp.