Sísifo Desce a Montanha

Por Ana Lucia Santana
Affonso Romano integra uma comunidade de autores que alia de maneira coerente ingredientes tradicionais da poética e as inovações da vanguarda. Nesta obra ele elabora tópicos e elementos formais diferenciados, porém de forma alguma desvinculados do todo que compõe sua criação.

O próprio autor confirma que este livro integra seu acervo poético. Ele considera a produção literária como uma estrutura que vai sendo alimentada e diversificada com a passagem do tempo e no âmbito espacial. Ele intitula esse conceito de projeto poético pensante.

Em Sísifo Desce a Montanha, Affonso estabelece como balizas os elementos da morte e do finito. Assim, tudo gira em torno desses temas: os temores, as aflições, os mistérios, o desassossego e tudo mais que envolve esta temática.

Mas, embora ele enfoque principalmente a questão da morte, a surpresa ante a ação das bactérias, diante do Universo, de um bicho e da finitude do nosso mundo, este não é exatamente um tratado sobre a morte, e sim sobre a beleza da vida. De certa forma, é preciso realmente se aproximar da morte para, então, aprender a viver. É o que faz o poeta nesta obra. Ele ratifica a vocação do Homem para o aprendizado até o último instante da sua existência.

No poema Véspera ele deixa claro que ninguém está pronto para morrer, para enfrentar o instante final. A finitude é um dos mistérios mais estimulantes com que a Humanidade se depara, talvez até o maior de todos. Se, por um lado, o autor aborda a morte que irá acontecer dentro de 4 ou 5 bilhões de anos, por outro ele retrata a curta permanência neste plano repleto de matizes, passagens graduais e variáveis.

Os poemas também estão permeados por questões filosóficas, as quais navegam de Platão a Nietzsche e de Derrida a Foucault. Eles trazem consigo concepções relativas a cada tema e a princípios estéticos estreitamente ligados ao tecido poético. A própria métrica traduz a sofisticação do poeta.

O livro é concluído com o poema Exercício de Finitude, o qual encerra a sequência de significados que se inicia com o próprio título da obra. O autor esclarece que esta poesia revela o ponto de vista de quem partiu e está dizendo adeus com uma sensação de bem-estar por se libertar dos eventos catastróficos em que o mundo se enredou.

Affonso Romano de Sant'Anna nasceu na cidade de Belo Horizonte, em Minas Gerais, no dia 27 de março de 1937. O autor brasileiro integrou as correntes de vanguarda poética predominantes nos anos 50 e 60. Em 1961 ele se graduou em Letras Neolatinas, pela então Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da UMG, hoje Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais.

Entre 1990 e 1996 Affonso presidiu a Fundação Biblioteca Nacional e aí implantou grandiosos projetos de incentivo à leitura, tal como o Sistema Nacional de Bibliotecas. Hoje ele publica seus artigos e crônicas nos jornais Estado de Minas e Correio Brasiliense. O autor é casado com a escritora Marina Colasanti.

Fontes:
http://www.uemg.br/noticia_detalhe.php?id=5077
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrada/18624-transcendencia-a-morte-marca-quotsisifo-desce-a-montanhaquot.shtm
http://pt.wikipedia.org/wiki/Affonso_Romano_de_Sant'Anna