Teleco, o Coelhinho

Por Paula Perin dos Santos
O conto “Teleco, o Coelhinho” de Murilo Rubião foi publicado em 1965 no seu livro “Os Dragões e Outros Contos”, introduzindo uma série de contos novos do autor. O tema da metamorfose, iniciado no conto “O Ex-Mágico”, segue também em contos como este, objeto de nossa análise. As transformações que acontecem repentinamente com seu personagem revelam uma tentativa inútil de adaptação a um mundo onde não há mais valores como a inocência e pureza. O tom lúdico desse conto serve para mascarar as profundas questões da existência humana.

O Enredo

Este conto narra a história de um coelho que pode se transformar em diversos animais. O narrador, colecionador de selos, conheceu Teleco na praia, levando-o para sua própria casa. A partir daí, tornam-se grandes amigos. Teleco se transforma em vários bichos pelo simples desejo de agradar ao próximo. Gostava de ser gentil com as crianças e velhos, divertindo-os com hábeis malabarismos ou dando-lhes ajuda. Quando anão simpatizava com os vizinhos, como o agiota e suas irmãs, aparecia sob a pelo de um leão ou um tigre. Assustava-os mais para se divertir que por maldade. Quando a polícia chegava à casa de Teleco, procurava-o, mas não achava, pois ele se transformava em coelho. Os investigadores irritavam-se com os queixosos e ameaçava prende-los.

Certo dia, Teleco traz para casa uma mulher muito bonita, chamada Teresa. Agora Teleco afirmava ser homem, que seu nome seria Antônio Barbosa. Transformava-se em canguru e colocava óculos para impressionar Teresa, para que ela acreditasse que ele era realmente um homem. O narrador, companheiro e amigo de Teleco, apaixona-se por Teresa e a pede em casamento. Teresa recusa, dizendo que Teleco vale muito mais que ele.

Passado alguns dias, o narrador conta que, ao chegar à casa, encontra Teresa e Barbosa dançando indecentemente, de rostos colados. Indignado com a cena, separa-os. Agarrando o canguru pela gola, aponta-lhe violentamente o espelho, perguntando-lhe se ele é ou não um animal. Teresa socorre Teleco, afirmando que ele é um homem. O narrador, indignado, expulsa-os de casa. Teresa, revoltada com a atitude, diz que fará de Barbosa um homem importante. Ele se torna mágico, fazendo muito sucesso na cidade. A paixão do narrador por Teresa esvaece e ele volta a ter interesse pela coleção de selos.

Uma noite, quando o narrador está distraído a colar selos, vem por janela adentro um cachorro. Era Teleco. Perguntando por Teresa, Teleco dá respostas confusas, transformando-se incontrolavelmente em vários animais. Está doente, com uma tosse nervosa, não consegue se alimentar, pois ora sua boca é grande demais para o alimento, ora é pequena demais, devido a sua constante metamorforização. Cansado por vigiar Teleco vários dias, o narrador adormece. Quando acorda, percebe que Teleco transformara-se numa criança encardida, sem dentes. Está morta em seus braços.

Personagens

Murilo Rubião apresenta no título seu personagem principal. Teleco aparece inicialmente como coelho e durante toda a narrativa vai se metamorfoseando em vários animais, às vezes “de espécie inteiramente desconhecida ou de raça já extinta”.

Podemos classificá-lo tanto de herói como de anti-herói, pois no início da narrativa ele se apresenta como um ser puro, com características superiores dos outros personagens e se metamorfoseava com o “simples desejo de agradar ao próximo”. Desde o início vemos em Teleco uma inspiração bíblica.

Seu lado de anti-herói apresenta-se quando ele surge na pele de um canguru, classificado pelo narrador, seu amigo, como “um bicho mesquinho, de pêlos raros, a denunciar subserviência e torpeza”, e ainda “de pele gordurosa, os membros curtos, a alma dissimulada”.

A partir daí, Teleco declara-se homem e que seu nome é Antônio Barbosa. Torna-se mal-educado, zombeteiro e de hábitos que fogem à chamada etiqueta social: “Custava tolerar suas mentiras e, às refeições, a sua maneira ruidosa de comer, enchendo a boca de comida com o auxílio das mãos”.

Como personagens secundários, temos: o amigo de Teleco, que é o narrador da história e que não se apresenta, nem tem seu nome pronunciado pelos outros personagens: a única coisa que ele revela é que é um colecionador de selos e morava sozinho; Teresa, “uma jovem mulher”, que aparece como namorada de Teleco.

Estes dois personagens, apesar de secundários, têm importância vital para o protagonista, pois cada ação praticada por eles resulta numa reação de Teleco. Como exemplo disso, temos a tolerância do narrador, quando Teleco surge como canguru, autodenominando-se homem e entendendo a isto como sinônimo de fraqueza. Segundo o narrador, Teleco “tornou-se atrevido e zombava [dele] quando o recriminava por vestir [suas] roupas”.

Já Teresa tem um papel um tanto obscuro dentro da narrativa. Ela aparece sem nenhuma explicação, não aceita o pedido de casamento do narrador, afirmando que Teleco vale bem mais, levantando suspeitas sobre suas verdadeiras intenções em relação a Teleco (seria amor verdadeiro ou puro interesse?). Quando o narrador expulsa os dois de sua casa, Teresa promete fazer de Barbosa um homem importante, o que realmente acontece, pois Teleco torna-se um mágico famoso. Quando porém, retorna à casa do narrador em forma de cachorro, sozinho e doente, não consegue explicar o que aconteceu, mas, ao transformar-se numa cascavel, passa-nos a idéia de traição, possivelmente outra inspiração bíblica.

Foco Narrativo

O conto é narrado em 1ª pessoa, ou seja, o narrador não é um mero observador, ele faz parte da ação, apesar de não ser o protagonista. Ele não consegue ser imparcial, por isso deixa transparecer seus pensamentos e opiniões nos dois momentos da narrativa: inicialmente, apresenta-se como amigo de um ser de aparência mutante, Teleco, e depois revela sua repulsa em função da mudança de comportamento de Teleco.

Exemplos dessa parcialidade do narrador são encontrados em trechos como “o seu jeito polido de fazer as coisas comoveu-me”, no primeiro momento; “também a sua figura tosta me repugnava” – o segundo momento da narrativa.

Exatamente por ser em 1ª pessoa, o narrador tem sua visão limitada, sendo incapaz tanto de conhecer interiormente os personagens dos quais fala como também de explicar os pontos obscuros da história, como por exemplo, o que teria acontecido a Teleco nos dias em que esteve desaparecido.

Espaço, Ambiente e Tempo

· Espaço Central: a casa do narrador.

· Ambiente: não existe no conto, pois os espaços não influenciam a ação, os pensamentos e a personalidade dos personagens.

· Tempo: o conto é narrado em tempo cronológico, ligado ao enredo linear. Estia-se que a história se passa em, no máximo, dois anos.

Verossimilhança

“Teleco, o Coelhinho” é inverossímil quanto ao discurso narrativo, mas verossímil enquanto narrativa fantástica. Isso porque o conto apresenta uma seqüência de ações que são impossíveis de acontecer “de verdade”, mas o texto nos é apresentado de uma forma interna tão lógica que nos faz aceitar o irreal como sendo real, sem nenhuma reação contrária. Teleco faz parte de uma reação absurda, mas transportada para uma realidade social possível, pois ele vivencia o jogo da sociedade: quando se autodenomina homem, passa a agir como “o homem”.

Tema – Assunto – Mensagem

· Tema: Animalização x Humanização.

· Assunto: As metamorfoses de Teleco.

· Mensagem: o mundo é animalizado pelas injustiças, desigualdade e hipocrisia.

A narrativa muriliana, por ser fantástica e carnavalizada nos permite reconhecer o uso de muitas metáforas. Dentro desse tipo de estética talvez seja este o ponto mais importante, pois é através do trabalho metaforizado que o autor diz e mostra tudo o que pensa e vê.

Uma característica marcante nos contos de Murilo é a utilização de epígrafes bíblicas. Em “Teleco, o Coelhinho” a epígrafe é um trecho de Provérbios 30, 18-19: “Três coisas me são difíceis de entender, e uma quarta em a ignoro completamente: o caminho da águia no ar, o caminho da cobra sobre a pedra, o caminho a nau no meio do mar, e o caminho do homem na sua mocidade”. Nela, Teleco não entende o que é ser homem, apesar de continuar desejando sê-lo.

O tema central do conto é a animalização da humanidade. O homem está deixando de ser um “humano” para ser um “desumano”. E Murilo Rubião demonstra isso através das metamorfoses de Teleco, que deseja tanto se tornar homem, que chega a acreditar que na pele de um canguru já o é (talvez pelo simples fato de “andar em pé”).

Porém, o inocente e puro coelhinho é atingido pela hipocrisia e injustiça, tipicamente humanas. Teleco não diz o que pensa ou sente, ele revela isso através de suas metamorfoses. A partir delas, o leitor tira suas conclusões e sentido.

No início do conto, Teleco transforma-se para agradar aos outros: “Gostava de ser gentil com crianças e velhos, divertindo-os com hábeis malabarismos...”. No final do conto, porém quando já não pode controlar seus poderes, é possível se ter idéia, a partir de suas incontroláveis mutações, do que pode ter acontecido a ele durante o tempo em que esteve fora da casa do amigo.

Ele volta na forma de cachorro e chama o narrador de amigo, condizendo com o que diz o censo comum: “o cão é o melhor amigo do homem”. Quando o narrador pergunta por Teresa, Teleco transforma-se num pavão, considerado como uma das aves mais belas, de penas encantadoras, o que nos remete à beleza de Teresa. Em seguida transforma-se numa cascavel de guizos “chocalhantes”, remetendo-nos à idéia de que Teleco poderia ter sido seduzido e traído por Teresa, pois, biblicamente falando, a cobra está relacionada à sedução, perfídia e deslealdade.

Ao sofrer as constantes mutações, percebemos que Teleco perde o controle de si mesmo, porque acaba descobrindo que o ser humano é cruel e traidor e, embora Teleco o poder de se transformar em qualquer animal, nada ele pode fazer para mudar a natureza humana.

Depois se transforma em carneirinho, símbolo da inocência e fragilidade. O narrador colhe-o com as mãos e, cansado da dura vigília, adormece com ele nos braços. Ao acordar, no seu colo havia “uma criança encardida, sem dentes. Morta.” Mais uma vez percebe-se a importância que as figuras e significados bíblicos têm na obra de Murilo Rubião: tanto o carneirinho quanto a criança representam a pureza e ingenuidade. Mas a criança em que se transformara Teleco não tem dentes. Isso nos remete à imperfeição natural do ser humano.

Teleco, inicialmente, parece uma criança. Tem a pureza delas e deseja apenas agradar ao próximo. Entretanto, ao considerar-se homem, assume toda a torpeza inerente a ele.

Murilo Rubião parece ter sintetizado neste conto o início da criação humana, de acordo com as questões bíblicas, até o momento em que o homem é corrompido. No entanto, o autor parece não acreditar em uma salvação, dado o desfecho com que arremata suas obras.

Fontes
SCHWARTZ, Jorge. Murilo Rubião: Literatura Comentada. São Paulo, Abril, 1981.