História do estudo da anatomia humana

Segundo Vieira, as principais contribuições da medicina Grega antiga para o estudo da anatomia vieram de duas escolas filosóficas: a Escola Hipocrática e a Escola Empírica de Alexandria. Segundo Rebollo, as Escolas transmitiam de forma oral o conhecimento teórico e prático, e, por vezes, possuíam escritos e anotações que acompanhavam estes aprendizados. A Escola Hipocrática se utilizava da teoria dos humores, e a Escola Empírica era muito mais observadora e se utilizava muito da técnica de autopsia e comparação de casos de enfermidades para entender formas de tratamentos.

Na Índia antiga havia a medicina ayurvédica. De acordo Magner, Susruta justificou o estudo da anatomia como uma forma de conhecimento que liga o fenômeno divino ao humano, incluindo, assim, o relacionamento entre os humanos e os deuses. Susruta analisou os corpos de pessoas de meia idade e que não haviam morrido de doença ou envenenamento para entender cada parte da anatomia de uma pessoa saudável.

Durante o domínio do Império Romano, como já foi dito na Medicina romana antiga, a maioria da produção de tratados médicos era escrita por enciclopedistas que compilaram tratados ligados ao conhecimento da Escola hipocrática, e houve poucas contribuições originais, mas a exceção foi Galeno, que era comentarista dos tratados. Segundo Rebollo, Galeno sublinhou na obra Procedimentos anatômicos, que quem pertencesse à relata que fosse da linhagem médica era ensinado a ler, escrever e dissecar ao mesmo tempo.

Schmitt destaca que a religião cristã trabalhou muito com a cura da alma, pois acreditavam que as doenças eram possessão de seres demoníacos. A medicina medieval foi influenciada por textos da antiguidade, principalmente pela teoria humoral retomada por Isidoro de Sevilha, Ruban Maur e Hildegarda de Bingen. A partir do século XI, fortaleceu-se a influência da medicina árabe na Europa com as obras e traduções de Constantino o Africano, que possuía conhecimentos da antiguidade e de Al-Farabi e de Avicena. Segundo Rebollo, André Vesálio contribuiu com suas obras fornecendo elementos para a grande revolução da descrição das estruturas de cada parte do corpo acompanhado de imagens de ossos, músculos, nervos, veias, artérias e órgãos.

Conforme Magner, a anatomia chinesa clássica se refere à energia vital primária (qi) como ''fogo potencial’', que foi atribuída a um médico da dinastia Yu'an. O "fogo potencial”, que se origina no abdômen, é controlado por fluidos corporais, como o sangue. Os seguidores dessa escola de pensamento tentavam manter a saúde equilibrada tanto física quanto espiritualmente, e, por meio do conhecimento do Yin e Yang, administravam a alimentação e seu entorno.

No século XVIII, Hermann Boerhaave se inspirou nos textos de Hipócrates, Francis Bacon e Thomas Sydenham para integrar os conhecimentos destes sobre a natureza das doenças. Conforme Magner, Boerhaave pesquisou os processos digestivos e percebeu distúrbios do trato intestinal que afetavam a condição do sangue, da pele, do leite e do cérebro. Giovanni Battista Morgagni também contribui com pesquisa através de autópsias das pessoas mortas, verificando que obtinham diagnósticos e executavam tratamentos erroneamente.

No século XIX, Jean Antoine Villemin descreveu o escorbuto como sendo um miasma contagioso que poderia ser tratado com legumes frescos e limões. Já Sir Almroth Wright atribuiu a causa do escorbuto como sendo intoxicação ácida do sangue, e, portanto, o tratamento seria feito através de lactato de sódio que restauraria a alcalinidade normal do sangue.

A deficiência de vitaminas foi um dos grandes temas para medicina preventiva no século XX. Na década de 1940, o cirurgião John Crandon se utilizou como cobaia própria para analisar a relação entre deficiência de vitamina C e cicatrização de feridas. Através desta pesquisa percebeu que após 19 semanas de dieta restrita apresentou sinais de escorbuto.

Bibliografia

MAIA, Patrícia Albano. Práticas Terapêuticas Jesuíticas n Império Colonial Português: medicamentos e boticas no século XVIII. Tese de doutorado. São Paulo: USP, 2012, 241 pgs.

MAGNER, Lois N. A History of Medicine.Boca Raton: Taylor & Francis Group, 2005, 626 pgs.

REBOLLO, Regina Andrés. O legado hipocrático e sua fortuna no período grego-romano: de Cós a Ga O legado hipocrático e Galeno. In: Scientle Studia. São Paulo, v. 4, n. 1, 2006, pg. 45-82. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/ss/v4n1/v4n1a02.pdf

VIEIRA, Raymundo Manno. Raízes históricas da medicina ocidental. São Paulo: FAP, 2012, 648 pgs.

SCHMITT, Jean-Claude. O corpo, os ritos, os sonhos, o tempo: Ensaios de antropologia medieval. Petrópolis: Vozes, 2014.

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