Crise no Ensino de Ciências

Por André Luis Silva da Silva
O ensino de Ciências possui, entre outros, segundo Harres (1999), o objetivo de propiciar aos estudantes uma visão adequada para a Ciência, mas, para que isso ocorra, é necessário um novo tipo de professor, que compreenda a produção, a natureza e a evolução da Ciência, incluindo suas implicações com a sociedade. Mas o fato é que vivemos hoje uma real crise no ensino de ciências, onde sua apresentação em sala de aula não permite a intervenção satisfatória do educando, sendo que este a vê como um compêndio de conceituações e classificações, consolidadas e definidas já em sua base, com a grande maioria delas excessivamente distante de sua realidade contextual.

Dessa forma, sobretudo quando se aproxima das séries finais do Ensino Fundamental, tem-se resumido para a maioria dos estudantes a disciplinas difíceis de serem compreendidas, o que torna o conhecimento maçante e sem atrativo algum, causando desinteresse por parte dos alunos, que são levados a decorar conceitos, símbolos ou fórmulas, sem que esses tenham significado ou representem um conhecimento para eles.

Esse quadro problemático pode modificar-se quando se busca alternativas para relacionar os conteúdos trabalhados em sala de aula com o cotidiano dos alunos, pois desta forma inevitavelmente esses conteúdos terão para eles uma maior significação. Entretanto, não basta relacionar-se os conteúdos com o cotidiano para que a aprendizagem ocorra. É necessário adotar-se uma metodologia que leve o educando a construção, ou reconstrução, de seu saber em ciências.

De acordo com Piaget, o desenvolvimento cognitivo humano é dividido em quatro estágios: o Sensório-Motor (até os 2 anos de idade), o Pré-Operacional (dos 2 aos 7 anos), o Operatório-Concreto (dos 7 aos 11 anos), e o Operatório-Formal (dos 11 aos 15 anos). Este quarto estágio se articula às proposições de Kuhn, pois é nesta fase do desenvolvimento cognitivo que as deduções lógicas são fortalecidas e também é nesta fase que as bases do pensamento científico aparecem (Piaget, 1976), e se a criança se deparar com a possibilidade de construção de um conhecimento científico partindo de uma ciência não exata e formatada, poderá então adquirir ferramentas para compreendê-la e com ela interagir.

E assim, a articulação das concepções de Kuhn e de Piaget sobre ciências e suas perspectivas no processo de ensino-aprendizagem poderão ter êxito na relação com as proposições tratadas por Perrenoud, quando este afirma que parte da dificuldade enfrentada pelos educandos está associada ao nível de desenvolvimento cognitivo, à metodologia aplicada em sala de aula, fatores estes que convergem na sistematização de um currículo pedagógico, tripé este fundamental na relação ensino e aprendizagem (Perrenoud, 1995).

Referências:
PIAGET, J.; A Equilibração das Estruturas Cognitivas, problema central do desenvolvimento, Rio de Janeiro: Zahar, 1976.
PERRENOUD, P. 1999. Construir as competências desde a escola. Editora Artmed: Porto Alegre, p.89.
KUHN, T. S.; The Structure of Scientific Revolutions, University of Chicago Press, Chicago, 1962.
HARRES, J. B. S. Concepções de professores sobre a natureza da Ciência. Porto Alegre: Pontifícia Católica do Rio Grande do Sul, 1999. (Tese de Doutorado).