Hipocondria

Por Ana Lucia Santana
O hipocondríaco revela freqüentemente o medo de estar doente, mais que isso, acredita ser portador de uma doença grave. Pequenos sinais e sintomas leves, normais no organismo, são interpretados como algo significativo, alguns até crêem que vão morrer por causa desses indícios expressos pelo corpo. Começa então a maratona médica, pois estes pacientes vão peregrinar entre vários profissionais da saúde até encontrarem alguém que confirme suas preocupações. Enquanto suas suspeitas não são ratificadas eles persistem em sua busca, cada vez mais decepcionados e ressentidos.

Pode-se achar que, ao ver o resultado negativo dos exames realizados, o pretenso enfermo desistirá, mas não é o que ocorre na maioria das vezes, pois ele geralmente prefere acreditar que os mesmos estão errados. Muitas vezes o real problema do paciente é o seu emocional, abalado e carente, uma vez que ele se sente não compreendido por seus familiares, ou despojado do devido valor. Em alguns casos, o indivíduo sente a necessidade de chamar a atenção, tornar-se o centro das preocupações e ser liberado de suas tarefas. É muito difícil para o psiquiatra avaliar devidamente esta doença e medicá-la, pois estas pessoas não se acham psiquicamente doentes, portanto elas dispensam facilmente qualquer ajuda psiquiátrica.

O hipocondríaco pode privilegiar um órgão do corpo e nele concentrar todas as suas desconfianças – por exemplo, ele pode suspeitar do coração, ou do aparelho digestivo. O mais complicado para o médico é tranqüilizar este paciente, por mais confiança que inspire a relação entre ambos, pois o suposto doente está mergulhado profundamente em sua obsessão. Aliás, alguns casos de hipocondria ou nosomania são associados a comportamentos obsessivo-compulsivos, pois os enfermos apresentam uma idéia fixa e se tornam compulsivos no hábito de marcar consultas sem cessar e na prática de visitar constantemente os médicos e os sistemas de saúde. Mas os portadores deste distúrbio não deliram, conservam uma certa racionalidade, pois normalmente admitem que estão sendo excessivos em suas preocupações, embora não consigam aceitar a idéia de que não estão enfermos.

Estatisticamente pode-se dizer que de quatro a cinco por cento dos pacientes que procuram o sistema de saúde estão na verdade com um distúrbio de hipocondria, o qual se torna um obstáculo para o desenvolvimento pessoal e profissional dos que são atingidos por ele, muitas vezes desencadeando uma doença real. Este problema emocional também pode estar conectado a episódios de ansiedade. Alguns pacientes revelam igualmente traumas do passado, ou seja, de uma enfermidade grave que lhes acometeu tempos atrás, especialmente no período da infância. Essa lembrança é desencadeada normalmente por um episódio que envolve um alto teor de estresse, o que pode se dar em qualquer faixa etária, sexual e social. Porém, encontra-se com mais freqüência em jovens adultos e pode se prolongar por um longo tempo. Em raros casos o sujeito finge estar enfermo para obter algum lucro, seja o acesso a uma droga determinada ou um ganho financeiro. Já o hipocondríaco realmente crê estar com uma doença.

A mídia, principalmente a Internet nos dias atuais, leva ao paciente um maior conhecimento sobre as doenças e seus sintomas, o que contribui para que ele somatize ou se sugestione. Não é difícil perceber quando um paciente está com sintomas hipocondríacos, pois o médico percebe, através de suas queixas constantes, da análise de sua ficha com a história de seus problemas médicos, nos exames orgânicos e laboratoriais, o que realmente está acontecendo com ele. O hipocondríaco pode sentir um pouco de alívio se tomar um antidepressivo, mas é preciso avaliar se há algum outro distúrbio psíquico envolvido. Se houver sinais de Transtorno Obsessivo-Compulsivo, o enfermo pode ser tratado com os mesmos medicamentos usados para este problema, como a Fluoxetina e o Prozac. Uma boa terapia, principalmente a cognitiva comportamental, pode se revelar muito eficiente para ajudar os portadores de hipocondria. Outro ponto importante é a relação entre o médico e o paciente, uma vez que a atitude deste profissional, ouvindo pacientemente as queixas do hipocondríaco, permitindo que ele volte regularmente, reduzem sua ansiedade.