Narrativa

Por Ana Lucia Santana
Um escritor, ao narrar, na verdade tece e entretece histórias, criando um texto que flui no imaginário do leitor, introduzindo-o a um universo paralelo, o qual, por mais que busque retratar o real, sempre estará permeado por elementos fictícios. O autor guia os que se aventuram pelas páginas geradas pela sua imaginação, por uma esfera que transcende a realidade, muitas vezes através de uma dimensão intencionalmente mágica.

Narrar inclui compor tramas, elaborar personagens mais ou menos complexos, mesclar fantasia e realidade, elementos oníricos e concretos, temporalidades e paisagens distintas, culturas variadas, mitos e sabedorias das mais diferentes ascendências. A boa narrativa consegue transportar o leitor para outras esferas, levando-o inclusive a se sentir na pele dos personagens bem compostos.

A narrativa devolve à aridez do mundo real o perdido encantamento dos tempos antigos, a magia e o mistério do desconhecido, o poder de redescobrir novas possibilidades na existência hoje tão previsível. O Homem, desde eras ancestrais, desenvolve continuamente sua capacidade de criar histórias e, através delas, melhor compreender o mundo em que vive.

Mais que isso, como a inesquecível personagem das 1001 Noites, o narrador organiza a psique humana, e cura as feridas nela presentes, como as do sultão, carregado de ódio, que teve suas emoções reequilibradas pelo dom de contar histórias da sua amada Sherazade. Até hoje, no mundo cético em que vivemos, é reconhecido o potencial balsâmico da Narrativa.

A literatura narrativa pode ser mais ou menos perpassada pelo tom poético, constituindo o que se chama de prosa poética. O estilo narrativo é composto por cinco elementos básicos – o narrador, as personagens, a ação, tempo e espaço. Os personagens podem ser conhecidos através de seus elementos físicos e também por suas características psicológicas.

Os personagens são apresentados ao leitor através da técnica descritiva, daí a descrição e a narrativa estarem sempre tão próximas, pois muitas vezes, para narrar uma história, é preciso transmitir dados sobre algo ou alguém. Além disso, eles podem ser introduzidos por meio do discurso direto – sendo conhecidos por seus atributos - ou através do indireto – a partir de seu comportamento, suas atitudes.

A ação de uma história está relacionada ao enredo ou trama, correspondente ao roteiro cinematográfico ou televisivo. É nele que os acontecimentos fluem, compondo uma rede de eventos, aventuras, contextos e situações vivenciadas pelos personagens, em um dado tempo – ou em múltiplas temporalidades – ou espaço, que também pode se desdobrar em várias paisagens determinantes. Construir o enredo é o próprio ato de edificar a narrativa.

O narrador, aquele que conta a história, pode estar travestido como um personagem que narra a trama da qual ele mesmo é o principal partícipe, transmitindo a narrativa na primeira pessoa. Ou ser o narrador-observador, atuando apenas como testemunha dos fatos que se sucedem; ele só tem conhecimento do que vê, e assim a narra na terceira pessoa, passando para o leitor o seu ponto de vista.

Já o narrador onisciente tem conhecimento de tudo que se passa na trama, sendo capaz de narrar não só o que observa, mas o que sabe sobre cada personagem, seus meandros mais íntimos, suas reflexões, sua mente, a própria alma dele. Ele decifra seus mistérios mais profundos e recônditos, até mesmo o que está escondido no inconsciente. Normalmente ele utiliza em suas narrativas o discurso indireto livre.

Fontes
• Amaral, Emília; Severino, Antônio; Patrocínio, Mauro Ferreira do. Novo Manual Nova Cultural. Nova Cultural e Círculo do Livro, São Paulo, 1996.