Cabala

Por Ana Lucia Santana
A Cabala é uma doutrina mística judaica que procura compreender a essência de Deus e do Universo. Este termo proveniente do hebraico tem o sentido de ‘receber’. Este tratado envolve questões religiosas e filosóficas, divergindo do judaísmo ortodoxo, do Talmud – obra que reúne os debates teóricos dos rabis sobre as tradições judaicas.

Este caráter esotérico do Judaísmo foi mantido em segredo durante muito tempo, inacessível principalmente para as mulheres, destinado apenas ao conhecimento de alguns eleitos. Conforme os mitos hebraicos, esta sabedoria milenar foi revelada pelo Criador a Moisés ou pelo anjo conhecido como Raziel para Adão. Desde então foi sendo transmitida em estilo oral de uma geração para outra. A princípio seus ensinamentos tinham um caráter essencialmente fundamentado na experiência concreta, mas posteriormente eles assumiram uma natureza mais teórica, sob o poder da sabedoria disseminada pelos neoplatônicos e também pelos seguidores de Pitágoras.

A cabala recebeu um impulso notável no período medieval, com o aparecimento do tratado Sefer Yetzirah ou Sheper Bahir, conhecido como Livro da Luz, de teor místico, embora o texto mais remoto sobre esta doutrina seja o Livro da Formação ou Sepher Yetsirah, o qual surgiu antes mesmo do século VI. Nele se postula a crença de que o universo é uma extensão da substância divina.

Os iniciados da Cabala, conhecidos como ‘baale ha-kabbalah-kabbalah’ - possuidores ou mestres da Cabala -, têm o poder de conhecer a verdade mais profunda sobre Deus e o Universo, vendo assim além das aparências. Como afirmam os cabalistas, eles têm a capacidade de enxergar a totalidade, transcendendo os véus que encobrem a realidade maior, ou seja, as sete cortinas que separam o Homem de sua aliança mística com o Divino.

Este corpo doutrinário é composto por símbolos complexos, melhor dizendo, por letras, palavras, números e acentos pertencentes à Sagrada Escritura, os quais supostamente estão impregnados de um significado oculto, pesquisado pelos estudiosos da Cabala, os ‘maskilim’ ou iniciados. Desta forma, os adeptos do misticismo hebraico subvertem as tradições judaicas quando dão uma interpretação alternativa aos textos sagrados. Através da experiência cabalística é possível ter um contato mais próximo com Deus, sentir sua essência divina.

É possível atingir este estado sublime por meio de alguns métodos meditativos que induzem a esta condição de união mística. Os estudiosos da Cabala afirmam não ser fácil trilhar este caminho, pois há um ângulo divino que não está disponível para o Homem, ou seja, não é possível compreendê-lo pela razão humana. Há no interior de cada um qualidades divinas que, segundo os iniciados, são partes integrantes do que eles chamam de Árvore da Vida, no seu sentido horizontal. Este símbolo é composto pelas dez sefirot ou inteligências, criadas por Deus e inseridas no íntimo de todos os seres.

A meta final do Homem, em sua evolução, é alcançar a Luz, essência originária e infinita, que o preenche e completa definitivamente. Este objetivo sustenta a Humanidade em sua jornada espiritual. O ser humano caminha ainda nas sombras porque esta Luz tem um longo caminho a percorrer até chegar a nós, pois há pelo menos dez cortinas entre o Criador e sua criatura. Isto permite a cada um uma visão holística muito restrita, mas um dia o Homem será capaz de ver a realidade em sua total integridade, e então todos os desafios do caminho assumirão um sentido construtivo e será possível encontrar a solução para todos os problemas que afligem a Humanidade.

As pesquisas sobre a Cabala se intensificaram a partir de fins do século XIX, com o incremento dos estudos sobre a cultura hebraica. Desde então, esta doutrina mística tem sido abordada mais como uma visão de mundo guiada pela Razão, principalmente com a disseminação dos conceitos de Lazar Gulkowitsch.