Hassidismo

Por Ana Lucia Santana
O hassidismo constitui uma divisão no interior da religião judaica ortodoxa. Ao contrário do judaísmo talmúdico, próprio dos rabinos e da esfera intelectual, este movimento visa promover a face mística da espiritualidade, disseminando entre os judeus a mística piedosa como um elemento essencial de sua fé.

Na verdade, o aspecto hassídico sempre esteve presente na trajetória judaica, mas os pesquisadores contemporâneos preferem adotar esta expressão para intitular a corrente nascida em meados do século XVIII na Europa Oriental, uma iniciativa do rabino Baal Shem Tov.

O criador desta escola era um ser dotado do poder da cura; ele ia de aldeia em aldeia levando o alívio aos doentes; com o objetivo de divulgar seus ensinamentos, Shem reuniu os adeptos de suas reflexões em torno de um corpo doutrinário sistematizado, o qual configurou o hassidismo como uma disciplina de natureza religiosa.

O elemento central desta corrente é a ‘devekut’, a união mística com Deus, uma metodologia espiritual que tem como meta libertar o ser humano dos reveses da vida terrena. Seus discípulos pregam que o Homem tem o poder de se desligar dos bens materiais e de tudo que está relacionado ao mundo, por meio da prece meditativa, o ‘daven’, o qual pode conectar o indivíduo a Deus.

Shem Tov admite a ‘Shekhiná’, ou seja, a presença divina em cada vida, como uma prova da compaixão divina pelo ser humano e por todas as suas criaturas. Por outro lado, uma das lideranças mais significativas do Hassidismo no século XIX, Menahem Mendel de Kotzk, representa a polaridade oposta, pois destaca a revolta diante das imperfeições do Homem e de seus sofrimentos; sua ira o conduz ao conceito do ‘tikun olam’, a redenção do Cosmos.

As ideias opostas destes dois ícones do movimento hassídico imprimem nesta corrente a piedade alegre e compadecida, de um lado, e a busca implacável da justiça austera, do outro. O hassid, seguidor desta esfera mística, está constantemente imbuído da presença do Criador, pois se encontra quase sempre em estado de meditação, a qual não traz em si apenas os típicos lamentos judeus, mas igualmente as músicas melódicas que se repetem por um longo tempo e a coreografia hassídica.

A comunidade judaica se beneficiou amplamente do hassidismo, uma vez que ele provocou uma reestruturação extrema da sociedade judaica, reforçando o senso comunitário com base no conceito de uma vivência mística na vida cotidiana. A doutrina hassídica é um tanto complexa, pois se fundamenta no panenteísmo, segundo o qual Deus é a existência de fato, a essência de tudo que há; em sua versão mais radical, afirma-se que nada existe a não ser o Criador, tudo o mais é ilusão.

Não se deve confundir o panenteísmo com o panteísmo, movimento que prega a imanência divina ao Universo e à natureza; já na concepção panenteísta Deus se revela em cada evento universal, constituindo a realidade última, a única existência consistente. O mundo estaria encoberto por um manto que, uma vez removido, manifestaria tão somente a presença do Criador. Assim sendo, Ele está no interior de cada ser, mas também transcende a criatura, a qual nada mais seria que uma dissimulação do Ser Divino. Portanto, a Divindade atua como uma conexão entre todos os seres, os quais estão interligados em uma alteridade consagrada.

Desta forma, todos podem ser recuperados e alteados, aprimorados de tal forma que podem, assim, voltar ao seio divino. Cada indivíduo tem como papel principal na existência promover este resgate do outro. Eis porque o hassid não acredita no mal, e o vê apenas como uma máscara deturpada do que ainda não foi salvo.

Fontes:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Hassidismo
Alexandre Leone. A oração como experiência mística em Abraham J. Heschel: Uma filosofia da espiritualidade judaica contemporânea, in Dora Incontri. Educação e Espiritualidade – Interfaces e Perspectivas. Editora Comenius, Bragança Paulista, 2010, pp. 173-175.