Marcionismo

Por Emerson Santiago
Marcionismo é o nome dado a uma filosofia religiosa desenvolvida por Marcion (Marcião) de Sinope (110-160). Apesar de ser filho de um bispo (a igreja cristã não havia ainda estabelecido o celibato de sacerdotes) desta região do Ponto (atual Turquia), Marcion passou a adotar uma crença bastante diversa da ortodoxia cristã, o que o levou a ser excomungado em 144.

Sua teologia era baseada em uma visão dualista, que fazia uma distinção entre Jeová (Yaveh), deus cultuado pelos hebreus, que seria um ente mau, vingativo, simpático à guerra, inconstante, autor do mal, e que ficava acima de outros dois planos, um onde habitavam os anjos e outro onde fica a matéria. Do outro lado, estaria o deus revelado por Jesus, bom e verdadeiro, que estaria em um plano superior ao de Jeová. Acreditava ainda que a matéria era má, e que Cristo foi enviado para abolir a Lei e os profetas, bem como todas as obras do perverso criador. Cristo, ao se manifestar no mundo terreno, da matéria, teria se revestido de uma corporeidade apenas aparente, pois se assumisse a matéria ficaria sob o poder do criador maligno e não alcançaria seu objetivo.

Tais conceitos acabaram por angariar a Marcion a antipatia de muitos cristãos, que consideravam sua doutrina como herege. Como cânone de sua fé, adotou apenas o Evangelho de Lucas, ainda assim com vários cortes, e dez cartas do apóstolo são Paulo.

Para Marcion, aliás, são Paulo era o único entre os apóstolos que compreendeu a verdadeira mensagem de Jesus, estando os outros impregnados por demais da cultura judaica para compreendê-la. Além disso, considerava que todas as citações do Antigo Testamento encontradas em Lucas e nas cartas paulinas teriam sido inseridas por terceiros, interessados em deturpar a mensagem de Cristo. Por fim, sua filosofia desprezava a criação, a encarnação e a ressurreição final.

Para dar suporte ao seu pensamento, Marcion inclusive organizou uma igreja independente, com seus próprios bispos, rivalizando com o grupo cristão. O marcionismo foi assim considerado, em meio às várias seitas gnósticas que surgiam, com interpretações heterodoxas, o primeiro sério desafio à expansão do cristianismo.

Vários documentos teriam sido escritos por Marcion e seus seguidores para explicar e defender a sua doutrina, mas nenhum deles chegou até os dias de hoje. Acredita-se, porém, que eram de conhecimento geral na época em que foram elaborados. Mesmo assim, boa parte de sua crença pode ser reconstruída a partir dos textos deixados pelos seus críticos, em especial Tertuliano (um dos primeiros teóricos do cristianismo), em um trabalho composto de cinco livros, chamado de Adversus Marcionem, escrito por volta de 208.

Bibliografia:
NETO, Mesquita; ÁVILA, Nelson. O Marcionismo e o Cânon. Disponível em: <http://emdefesadagraca.blogspot.com.br/2011/11/o-marcionismo-e-o-canon.html>. Acesso em: 05 ago. 2012.