Paganismo

Pós-doutorado em História da Cultura (Unicamp, 2011)
Doutor em Ciências da Religião (Umesp, 2001)
Mestre em Teologia e História (Umesp, 1996)
Licenciado em Filosofia (Unicamp, 1992)
Bacharel em Teologia (Mackenzie, 1985)

Paganismo vem do latim pagus (campo) e paganus (pagão) significa “camponês” ou “rústico”. Como se refere originalmente ao povo rural traz referência às religiões politeístas e ligadas à natureza, tradições religiosas rurais e politeísmo.

Na Antiguidade eram praticadas religiões que cultivavam o respeito pelas forças vivas e sagradas da Natureza nas mitologia greco-romana e tradições politeístas europeias e norte-africanas pré-cristãs. Na Idade Média, houve a evolução do paganismo para religião cristã que se tornou oficial no Império, quando o catolicismo passou a tratar como “pagãos” romanos que continuavam fiéis às suas antigas religiões politeístas e não se convertiam ao cristianismo. Paganismo se tornou sinônimo de idolatria dos que não se convertiam ou não eram batizados, mera substituição do termo “gentio” que judeus usavam para quem não era de sua religião ou “infiéis” que muçulmanos usavam para se referir aos não-islâmicos, chamados de kafir (كافر) e mushrik.

Paganismo, atualmente, é um termo muito mal empregado, pois se refere a pessoas que cultuam divindades da Natureza e se tornou sinônimo equivocado de politeísmo ou ateísmo. Porém, há pessoas não-batizadas cristãs que são monoteístas (islamitas e judeus) e jamais poderiam ser considerados pagãos; se ateus sequer acreditam em divindades, não podem ser chamados de pagãos. Etnólogos consideram o termo paganismo impreciso e preferem usar outros melhores e precisos como animismo, panteísmo, xamanismo e politeísmo.

Paganismo, no século 20, se tornou significado de religiões orientais e indígenas ou relacionado às culturas Ocidental, Oriental, indígena, aborígene etc.; religiões étnicas não-abraâmicas ou ainda religiões que não estão organizadas como civis, apenas expressando correntes rurais e locais. Tem sido tratado como “espiritualidade” ou “religiosidade” e o paganismo não é uma religião, mas há religiões que manifestam culturas pagãs (bruxaria italiana, ibérica, celta, santeria, wicca e tantas outras).

Paganismo pode se referir ao politeísmo histórico (mitologia celta, paganismo nórdico dos vikings); às religiões étnicas como a religião tradicional chinesa e as religiões tradicionais africanas; às religiões indígenas e folclóricas; ou ao neopaganismo, que é a afinidade e admiração pelos princípios ligados à compreensão da Natureza como força criadora (wicca, reconstrucionismo helênico, neopaganismo germânico etc.).

Há esquemas que dão forma e concretude à espiritualidade e à cultura pagã, bem como ideais, liturgias e costumes religiosos típicos, locais e ancestrais, que apresentam diferenças entre si, mas características básicas permanecem como típicas do Paganismo:

  • Radical imanência divina na própria Natureza e em fenômenos naturais, incluindo as pessoas.
  • Religiosidade baseada no feminino e representada pela Grande-Mãe.
  • O masculino surge a partir dessa referência feminina básica, como filho e consorte só conhecido a partir da Deusa (provedor ou educador).
  • Ausência de dualismo e noções de opostos (bem x mal, céu x inferno, matéria x espírito).
  • Ausência das noções de pecado, inferno e mau absoluto.
  • Sacralidade da Terra e ausência de templos, mas com “sítios sagrados” (bosques, poços ou montanhas), posteriormente “templos pagãos”.
  • Imanência dos deuses e ancestralidade divina permitem relações pessoais humanos-deuses – deidades antropomórficas.
  • Calendário religioso sazonal, agrícola, com caráter de fertilidade com festividades em momentos de mudança de ciclos naturais.
  • Sem dogmatismos ou estruturas religiosas padronizadas.
  • Liberdade de cultuar deuses da forma que as pessoas desejarem, religiosidade doméstica ou pequenos grupos - laços de sangue ou compromisso. Grandes festivais são rituais comunitários e comprometem todos da comunidade.
  • Religiosidade mágica com a Natureza.
  • Religiões de comunhão visam harmonizar-se com a Natureza, intuitivas e emocionais, não proselitistas.
  • Respeito aos ancestrais, tradicionalismo de continuidade na egrégora ancestral, repetição dos mesmos ritos, épocas. União mística com aqueles que já celebraram antes rompe o tempo e estabelece relação mágica com ele: tornar presente o momento primevo de sua realização e todos que dele tenham participado ao longo dos tempos.
  • Perspectiva cíclica e certeza do eterno retorno.
  • "outro mundo" sem o ideal de vida pós-morte, mas dentro do ciclo da comunidade, passagem entre uma vida e o renascimento. Encontro com deidade sempre na comunhão com a Natureza e não no outro mundo.

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