Peregrinação

Por Ana Lucia Santana
Desde o mundo antigo, as peregrinações – de origem latina, per agros significa ‘pelos campos’ -, sob o ângulo histórico e religioso, consistiam em jornadas realizadas individualmente ou em grupo para um determinado lugar consagrado, uma cidade ou um templo marcado por um acontecimento especial ou pela passagem de um herói, um deus, algo sobrenatural. Deste ponto de vista, este fenômeno ocorre em praticamente todas as religiões e culturas, desde os tempos mais remotos. Assim, qualquer seguidor de um culto religioso, ao viajar a um local considerado sagrado, movido por um objetivo espiritual, está efetuando uma jornada.

Mas são os cristãos que vão introduzir esta expressão no âmbito lingüístico, por volta da primeira metade do século XIII, referindo-se aos adeptos do Cristianismo que se dirigiam a Roma ou a Terra Santa – hoje local de intenso conflito entre israelenses e palestinos – para percorrer seus territórios sagrados, muitas vezes até como expiação dos pecados ou com a intenção de cumprir punições impostas pela Igreja. As Cruzadas nascem posteriormente desse movimento dos peregrinos, com a intenção de resgatar terras consagradas pelos cristãos das mãos dos chamados ‘infiéis’, adeptos de outras religiões. O Cristianismo iniciou suas peregrinações no começo do século IV, quando se tornou legal, com o objetivo de percorrer a Terra Santa. Com as pregações de São Jerônimo, tempos depois, elas se intensificaram.

As peregrinações cristãs têm sua fonte de inspiração no Antigo Testamento, na história de Abraão e nas andanças do povo israelita, retratadas, por exemplo, no Êxodo. Jesus também tinha o hábito de peregrinar a Jerusalém. A Igreja manteve a tradição de visitar os lugares percorridos pelo Messias, consagrados pela sua morte, costume que se perpetuou com as Cruzadas, que alegavam defender locais e objetos abençoados pela presença de Cristo, dos quais eram afastados através de bloqueios muçulmanos. Atualmente essa mesma razão serve de pretexto para o conflito entre judeus e palestinos, que alegam estar lutando pelos territórios considerados sagrados tanto para o judaísmo quanto para o islamismo. A prática das peregrinações se mantém mais atual que nunca, entre todas as religiões, como os muçulmanos que, anualmente, se dirigem a Meca.

Peregrinações a determinados santuários, como o de Fátima, em Portugal, são comuns em nossos dias. Esta adoração aos Santos e aos objetos preciosos que lhes pertenceram tiveram início com a veneração dos mártires, que deram a vida nas arenas dos circos para testemunhar sua fé nos ensinamentos cristãos. Suas sepulturas muitas vezes serviram de base para a construção de templos majestosos, que se tornaram centros de peregrinação, principalmente na comemoração do dia em que foram martirizados, considerado como aniversário das vítimas do martírio. As visitas a estes locais cresceram com o tempo, transformando-se em verdadeiras peregrinações, pois visitar in loco estes lugares santos podia inclusive desencadear acontecimentos milagrosos.

Deve ficar claro que peregrinar não é simplesmente caminhar na direção de um determinado lugar, mas fazê-lo movido por algo muito importante, determinante para a vida do peregrino. Isto sim caracteriza a peregrinação. Alguns realizam este ato buscando o próprio sentido de sua existência, como uma viagem interior, o que ocorre muito, por exemplo, com os que seguem o Caminho de Santiago, para Santiago de Compostela, capital da Galiza, na Espanha. Os peregrinos dirigem-se para a catedral desta cidade, procurando tocar o manto de Santiago, um dos apóstolos de Jesus – acredita-se que seu corpo esteja neste templo. Outros locais de intensa peregrinação, desta vez praticada por outros cultos religiosos, são a Índia, no rio Ganges, sagrado para os hindus; o templo de Jerusalém, para os judeus; Benares, na Índia, para os brâmanes; o Vaticano para os cristãos. No Brasil são famosas as romarias a Nossa Senhora Aparecida e a Bom Jesus de Pirapora, ambos em São Paulo; Nossa Senhora de Nazaré, em Belém; Juazeiro do Norte, no Ceará.

Fontes
http://groups.msn.com/jacobeus/aperegrinao.msnw
http://www.cotianet.com.br/caucaia/pereg.htm